quinta-feira, 30 de abril de 2009

PARA UMA CONTRIBUIÇÃO CRÍTICA AO AMAZÔNIADOC

Aos que não tem História

Escrevo este texto sem nenhum ressentimento, mas com profunda tristeza, primeiro porque, de imediato, penso mesmo que nem deveria fazê-lo, desgastar o meu pensamento com reflexões sobre temáticas como esta, que me causam mais que náusea e contra as quais sempre me manifesto, sejam em tentativas formais filosofias por escrito, sejam em imprecações verbais, entretanto, menos pela tristeza - pois que esta também nos ensina -, e muito mais pelo pensamento, digo pela preservação do verdadeiro e corajoso pensamento, não posso me permitir apenas a observar o estado das coisas, sem que eu me indigne.
Há um massacre físico e ao mesmo tempo intelectual contra a Amazônia, há seres humanos que renegam a própria História, mas, se por um lado, eles deixam de ser o que são, já que perdem de vista as suas reais perspectivas de construção de identidades, por outro lado, nem por isso a História deixará de ser o que é com a sua inexorável tempestade a destruir estes vales desalmados do conhecimento.
Este massacre contra a Amazônia, portanto, se escreve nas linhas e entrelinhas acadêmicas e mediáticas e são fortalecidas, pois que financiadas, por um ciclo industrial cultural que corrobora para uma tentativa histórica de aniquilar todo e qualquer pensamento, toda e qualquer forma de resistência amazônida.
Nós, amazônidas, sabemos muito bem o quanto é sacrificante afirmar e preservar as nossas tradições contra discursos e práticas pressupostamente híbridos, mas que, por trás das máscaras desta contemporaneidade, utilizam-se das publicidades e dos apoios empresariais e governamentais para piratear e institucionalizar – silenciar – as produções artísticas e culturais das comunidades periféricas. Algumas vezes esta nossa ousadia é mesmo paga com a própria vida.
Não vou defender aqui nenhuma política de cotas para a arte amazônida – para que não me chamem de preconceituoso e bairrista, entretanto, chamo a atenção para uma histórica discriminação contra todas as formas de manifestação artística e cultural que não tencionam e (algumas) se recusam a aderir às tendências preconizadas pelo espírito contemporâneo.
Lamentavelmente, portanto, é na Amazônia onde podemos identificar tais fenômenos com maior clareza. Há neste lado do país uma vasta produção imagética que não é respeitada como documento audiovisual pelos que deveriam formular opiniões. Falo de jornalistas e de produtores de mídia, a maioria dos quais articulados a espaços institucionais e empresariais, necessariamente, ao serviço de políticas e linhas que se recusam a reconhecer e a dar valor ao que é produzido na Amazônia, motivo pelo qual eu cheguei a manifestar por escrito o meu incômodo pelo fato de uma empresa do rio de Janeiro estar a organizar os cineclubes do Maranhão, do mesmo modo que critiquei, por exemplo, que um americano tenha conquistado o grande prêmio do AmazôniaDoc com o apelativo tema da Irma Dorothy.
Com todo respeito a quem quer que seja de fazer/filmar o que quer que seja onde quer que seja, nós, amazônidas – e escreverei este trocadilho com todos os riscos e conseqüências daí advindas – não precisamos de heróis americanos (e nem de cariocas e mesmo paulistas).
Independentemente do interesse que tem o tema e da forma de abordagem do mesmo, há que ser evidenciado que nós amazônidas temos uma tradição de produção de imagens sobre este e outros temas, entretanto, estas imagens não adquirem o status de cinema, de documentário, de audiovisual ou de qualquer que seja o conceito definido de forma convencional por esta comercial indústria cinematográfica, que aceita este filme americano, com todas as chances de promoção pela indústria cultural nacional, com direito a comentários e resenhas críticas em cadernos culturais, num grande esquema de produção global (sem trocadilhos), coisa jamais facilitada para os realizadores amazônidas, que, por sua vez, na contramão da história oficial, vem escrevendo a HISTÓRIA desta terra, a partir de mitos e arquétipos enraizados nas realidades das populações locais,a partir da perspectiva e dos conhecimentos populares destes mesmos povos, que têm eles próprios que ter o direito de construírem as suas identidades artísticas, sob quaisquer formas em que estas sejam manifestadas.
Se os cariocas tem direito de organizar Cineclube no Maranhão e se os americanos têm direito de produzir filma na Amazônia, penso ser demasiado justo que os amazônidas tenham também direitos de produzir/preservar as suas imagens, os seus filmes, os seus cinemas, as suas produções imagéticas, indispensáveis aos processos dinâmicos de construções e de afirmação de seus conhecimentos, saberes, magias e artes.
PS:
A VALE vem produzindo anúncios no DIÁRIO DO PARÁ – um dos balcões-de-negócios disfarçados de jornal tal qual é O LIBERAL. E nestas publicidades, há uma tentativa descarada de associar a imagem destas duas empresas ao apoio à cultura popular, a exemplo de todas as empresas e instituições que se apropriam dos signos da arte e da cultura popular, sem que as comunidades produtoras desta arte e desta cultura recebam o que quer que seja em troca desta manipulação e usurpação.
© Francisco Weyl
Carpinteiro de Poesia e de Cinema

Neste domingo, os artistas Carlo Rômulo & Arthur Leandro apresentam DOCUMENTOS DA CAMPINA

Neste domingo, os artistas Carlo Rômulo & Arthur Leandro apresentam DOCUMENTOS DA CAMPINA, documentário inédito - filmado com câmara de celular - sobre este bairro localizado no coração de Belém, mas tratado como periferia,
em consequência de uma longa história de resistência, parte da qual resgatada/narrada pelo próprio Rômulo, personagem contemporâneo, criador/proprietário do CORREDOR POLONÊS ATELIER CULTURAL, onde (hoje) se produz, freneticamente, arte de intervenção social radical e libertária (entretanto, ignorada pela mídia e pelos seus repercussores/reprodutores que constituem esta estúpida camada dos fazedores de kurtura desta cidade ainda provinciana), portanto, mais que um simples documentário lançado às cegas em meio a este tempo de “amazoniadoc”, uma verdadeira aula cinematográfica de construção processual dos elementos audiovisuais que compõem a épica gramática cinematográfica.

A não perder: “DOCUMENTOS DA CAMPINA”
DOMINGO - 26 DE ABRIL - 20 HORAS - NA RUA GENERAL GURJÃO, 253
NO PROJETO CINEMA DE RUA
Filme de Carlo Rômulo e Arthur Leandro, com a presença dos realizadores, em sessão antecedida de conferência-relâmpago de Francisco Weyl.

segunda-feira, 30 de março de 2009

CRIADO-MUDO - NASCIDO NA DITADURA

http://www.criados-mudo.blogspot.com

PRA TRÁS, BRASIL - 45 anos pós-golpe

Colocar na ordem do dia o regime militar brasileiro – que durou quase 40 anos - significa assumir um compromisso com o presente deste país, que não pode apagar o seu passado, sob pena de não compreender o seu futuro, porque, afinal de contas, ainda há uma nova HISTÓRIA para ser escrita pelas mãos das gerações que lutaram e lutam por um mundo dignamente mais humano.
PRA TRÁS, BRASIL referencia um simbolismo espacial, na medida em que todas as suas imagens (entrevistas) são captadas na Praça da Bandeira, em frente ao Quartel do Exército, centro de Belém, Pará, portanto, é um documentário contra a ditadura, que se caracteriza, dessa forma, como um ato de rebeldia e de protesto contra o silêncio e todas as formas de omissão, opressão, repressão e preconceito político.
No documentário, o engenheiro agrônomo Humberto Cunha, ele próprio torturado pela ditadura na década de 60 – e, apesar disso, um grande construtor das lutas populares amazônidas, fundador da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos, sendo também responsável pela formação política e cultural de várias gerações paraoaras -, responderá perguntas por mim formuladas.
É com este espírito que produzo, realizo, monto e projeto, nesta terça, dia 31 de março de 2009, 45 anos depois do golpe militar, este filme.
Se você quer fazer parte deste processo, vá até a Praça da Bandeira e faça uma pergunta para o Humberto Cunha, ou então envia uma pergunta, mas se você não pode nem ir até a Praça e nem mandar perguntas, aparece no Corredor Polonês Atelier Cultural (General Gurjão, 273, Campina), 20 horas, quando projeto este filme, no âmbito do Projeto Cinema de Rua (http://cinemaderua.blogspot.com).
A História do Brasil agradece.
©
Francisco Weyl

FICHA TÉCNICA:
PRA TRÁS, BRASIL – 45 anos pós-golpe
Entrevistado: Humberto da Rocha Cunha
Entrevistas, Câmara, produção, realização e montagem: Francisco Weyl
Tempo: (...)
Digital, Cor, Brasil, 2009

PROJEÇÃO: DIA 31 DE MARÇO DE 2009
20 HORAS
RUA GENERAL GURJÃO, 273 – CAMPINA
Com a presença do realizador e do entrevistado, para um debate público.

Apoio:
ORGANIZAÇÃO CULTURAL CORREDOR DA AMAZÔNIA
REDE APARELHO
CINECLUBE AMAZONAS DOURO
CINECLUBE CORREDOR POLONÊS

--
© Francisco Weyl
Carpinteiro de poesia e de cinema

terça-feira, 24 de março de 2009

O DOCUMENTÁRIO CONTRA A DITADURA

Camarad@s:

Farei um documentário a partir de entrevista com o camarada Humberto Cunha.
Penso ser importante a Vossa participação com perguntas.
Na Praça da Bandeira, dia 31 de março, às 10 horas da manhã.
(...)
E às 21 horas, projeto este filme-documental
no âmbito do CINEMA DE RUA (http:www.cinemaderua.blogspot.com),
na Rua General Gurjão, Bairro da Campina.
(...)
Agradeço a gentileza de divulgarem esta cena de guerrilha artística.
(...)
AXÉ!

--
© Francisco Weyl
Carpinteiro de poesia e de cinema

FONES: ( 91) 3241 9080 / 4009 2514 / 8412 8628

ACESSE:
http://resistenciamarajoara.blogspot.com
http://www.cinemaderua.blogspot.com
http://www.cinemapobre.org
http://www.mazagao.com. sapo.pt
http://www.cinemapobre.blogspot.com
http://www.alba.com. sapo.pt
http://www.carpintaria.blogspot.com
http://www.poesofia.blogspot.com
http://www.apostaladodapoesia.blogspot.com

Pra frente Brasil dia 31 de março.

O projeto Cinema de Rua exibe o filme "Pra frente Brasil", e na 'preliminar' do filme, tem a projeção audiovisual de uma série de entrevistas que estamos fazendo com cidadãos que sofreram tortura na ditadura militar. É na data do quadragésimo quinto aniversário do golpe militar que deu inicio aos anos de chumbo no Brasil....

Sinopse do filme: Em 1970, em plena época dos anos de chumbo, o Brasil inteiro torce e vibra com a seleção brasileira de futebol, na Copa do Mundo realizada no México. Enquanto isso, prisioneiros políticos são torturados nos porões da ditadura militar e inocentes são vítimas dessa violência.

Este evento faz parte da articulação artística em defesa da cidadania e dos direitos humanos, e pra manter viva a memória da história recente brasileira. 48H DITADURA NUNCA MAIS.

General Gurjão esquina da Bailique, a partir de 19h.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Prezados Athur, Crow, Weyl, Carlos e Cia...

E-mail do realizador Darcel Andrade, a propósito da projeção de seu filme POR QUE EU, no Projeto Cinema de Rua, dia 6 de março de 2009

Ecoam os sons da rua, dos carros, misturados ao som dos filmes que projetamos ontem no corredor polonês e as luzes dos faróis cruzadas a do projetor. Imaginem a cena numa visão global holográfica e cristalizando uma forma tridimensional como uma instalação de linguagens raras na formação de uma outra linguagem, poética.
Sentado à calçada, no batente das lojas, não somente assisti aos filmes propostos em uma programação, que só serviu de pretexto para reunir outra coisa maior, os sentidos e o valor do homem na concepção de um trabalho diferenciado de promover a poyesis entre sonho e realidade, vontade e atitude, encontro e resistência [aos modelos estabelecidos].
Weyl destacou o Apolíneo, o que habita no mundo dos aedos, e o trouxe para a nossa companhia, o Belo em Si, para o nosso mundo e filosofia fora do mundo das idéias, nesse encontro profano da realidade presente e palpável sem perder a beleza. Como ele mesmo diz: "ao trazer o filme para ser projetado, no meio da rua, a obra se transfigura".
A transfiguração, no sentido amplo da palavra, é transformação, é adquirir outras formas, inesperadas até, inusitadas, diferenciadas, compartilhadas, socializadas, degustadas pelos transeuntes que paravam para ver e ouvir imagem e vozes projetadas em um imenso lençol do outro lado da rua. Parecia proposital [palavra reducionista], mas não, o natural se adapta ao real, à ficção, e tudo de configura, ou melhor, se transfigura em uma composição tridimensional e surrealista: imagem projetada, vozes dos personagens, carros que passam e pessoas que se movimentam frente à tela, como figurantes, objetos de cena, e que fazem parte do cenário do próprio filme que está sendo exibido. E para completar, um público seleto de poucas pessoas que souberam e desejaram entender essa nova maneira de expressão.
Onde estão os críticos? Onde se encontram os apaixonados pelo cinema? Estão trancados nas salas de exibição? Onde está a mídia que gosta de mostrar bumbum das celebridades instantâneas? Deixo claro que meu entendimento sobre o que se expõe nesse contexto, está voltado exclusivamente a uma nova forma de expressão do cinema e sua inserção nos espaços alternativos.
Os sujeitos entrevistados após a projeção, sentados despretensiosamente no bar ao lado, revelam a importância desse projeto. São trabalhadores anônimos, homens e mulheres, moradores do bairro que movimentam a feira de cultura aos domingos na Praça da República, esses desconhecidos do grande público. Carlos, com seu gravador de ouro, soube garimpar um brilho de lucidez nas vozes desses intérpretes, daí a certeza de que a mensagem levada pelo filme Por que Eu?, sobre a transmissão vertical, foi compreendida. Esse é o papel do cinema de rua, que eu incorporo agora, no contexto de minha ótica, ao cinema papa-chibé.
Obrigado, mais uma vez. Voltei pra casa feliz, porque sei, que, de alguma forma, o filme fez a diferença para essas poucas pessoas, a nossa razão de ser!
Um grande abraço
.

© Darcel Andrade

domingo, 8 de fevereiro de 2009

A "MALDIÇÃO" de Zé do Caixão

Sinopsis
Este filme é resultado do encontro de José Mojica Marins, o "Zé do Caixão", com a Escola Porto. É o primeiro filme de Mojica em Portugal e foi realizado durante o período das comemorações dos 500 anos de descobrimento do Brasil. É um filme de ficcção documental: na abertura, rituais e bruxarias em nome de Zé do Caixão; em sequência, fragmentos do encontro de José Mojica Marins com realizadores no Cineclube do Porto e o passeio de Mojica na Igreja de São Francisco e na Escola do Porto, à beira do Rio Douro. Aos sessenta e poucos ou muitos anos, Mojica revela neste filme uma humildade exemplar, típica de artistas que acreditam no que fazem.

Ficha técnica e artistica
Ano de Produção: 2000 - Rodado no Porto, Portugal - Tempo: 15 Minutos - Formato: Película Super-8 MM - Argumento, Câmara, Realização e Montagem: Zenito Weyl - Actor: José Mojica Marins - Actriz Convidada: Salomé Arieira - Cenografia: João Trindade - Fotografia de Cena: Celestino Monteiro - Direcção de Fotografia: Bruno Anneda - Produção: Sério Fernandes
Oitavo cartaz

Amaldiçoada seja a sua arte, Mojica!

Sétima conferência relâmpago

Conheci Mojica em 2000. Na cidade do Porto, Potugal, onde ele participava do "Fantasporto". Fui ao hotel onde ele estava hospedado e nessa mesma hora ele me enregou duas latas de 16 milímteros com o seu "À meia-noite levarei sua alma", que projetamos em uma sessão lotada no Cineclube do Porto para estudantes da escola onde eu me formei em cinema. Então, convidei Mojica para fazer um filme, "A maldição de Zé do Caixão em comunhão com a Escola do Porto sob as bénçãos de São Francisco de Assis" (Super-8 milímetros), película que pode ser vista no youtube (http://www.youtube.com/watch?v=xXbkUOU8tdg).
"A maldição..." foi o seu primeiro filme em Portugal, que estreamos em Belém durante o Concílio Artístico Luso-Brasileiro, que criou o Cineclube Amazonas Douro, o qual coordeno e do qual o Mojica é presidente de honra. E Mojica realizou conosco (um total de 13 pessoas – o número não foi por acaso) um outro flme, dessa vez, digital, o "Pará Zero Zero", resultado de uma oficina de audivisual, filme esse que deu mote à revista homônima e que foi lançado numa sexta-feira, 13 de junho de 2003, no Cemitério da Soledade, numa das cenas mais anárquicas desta terra.
Mojica faz filmes históricos, com uma coragem absoluta, sem medo da hipocrisia e da censura, sem medo da burocracia e da unanimidade, sem medo da mesmice e da burrice. Amaldiçoada seja a sua arte, vítima de todos os tipos de preconceitos e censuras, estes, originários, tanto durante os negros anos do regime militar, quanto neste tempo (pós-moderno?), no moralismo da (pseudo) intelectualidade cultural brasileira, em geral conceitual, covarde e leviana.
Ainda bem que este velho louco e alucinado foi ostracizado em seu próprio país. Assim, não precisou aprender a gramática da intelligentsia medíocre para construir o seu próprio percurso, fundado em corajosas atitudes, com as quais, enfrentando o medo a omissão da elite e sacrificando-se a si próprio e aos seus familiares e amigos, tem desempenhado a sua missão que é fazer cinema.
Indiferentemente aos critérios e análises reaccionários da crítica cinematográfica que se submete aos padrões e dogmas do sub cinema comercial, quer ele seja hollywoodiano ou Europeu, este homem "ignorante" (utilizo o termo entre aspas para ressaltar o preconceito da pseudo crítica intelectual), fez filmes influenciados pelo seu auto didatismo, sem nunca sequer ter lido um livro sobre cinema.
Mojica é um Brasil que se nega a si próprio. O Brasil pobre e violento, que tem força cósmica em sua interioridade mas que dispersa as suas energias em auto flagelações artísticas.
O Brasil de Mojica é genial, responde com criatividade às suas adversidades.

© Francisco Weyl (Carpinteiro de Poesia e de Cinema

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Sétimo cartaz

O FÓRUM SOCIAL MUNDIAL E O CORREDOR POLONÊS

Sexta Conferência-relâmpago

... Antes de mais nada, quero informar que este projeto é da responsabilidade do Cineclube Amazonas Douro, da Rede Aparelho e do Corredor Polonês Atelier Cultural, organizações de criação e de agitação artística que geraram o CINECLUBE CORREDOR POLONÊS, que temos a honra de coordenar, com o apoio do Pai Arthur Leandro e da galera do Corredor, o Krom, a Isabela, o André...
... Aqui nesta rua nós temos projetado filmes, recebido e conversado com as pessoas, e mesmo quando muitas pessoas passam, transeuntes em geral que moram aqui perto ou que passam aqui para ir a algum lugar, mesmo quando estas pessoas passam e não observam ou que fingem não observar o que acontece no meio da rua, no caso, estas projeções, de uma certa forma, todas elas já estabelecem um processo de colaboração conosco, um processo de construção de atitudes, estéticas e poéticas de rebeldia, que caracterizam as nossas ações, porque, apesar de estarmos no dito centro da cidade, a nossa postura, toda ela, é periférica, já que nos colocamos contra este conformismo paraoara e esta resignação belemense de fazer as suas programações culturais apenas no espaços centrais, nas galerias e nos museus do centro da cidade, absolutamente de costas á periferias, logo, quando ocupamos o espaço da rua, nós estamos permitindo a que todos participem, mesmo quando não participam, pois que o simples fato de por aqui passarem já colabora para este processo do acaso, mas não por acaso e sim com propósitos...
.. portanto, hoje nós queremos gritar sobre o Fórum Social Mundial que foi realizado aqui em Belém, entretanto, se perguntarmos a cada uma das pessoas que agora estão a passar aqui nesta rua o que elas pensam do FSM, a maioria delas vai dizer que o FSM deu a maior confusão, deu engarrafamento, fumaram maconha, andaram nus, ou seja, elas reproduzirão o senso comum propagado na mídia burguesa que tem aqui no Pará como patrocinadores as famílias maiorana e barbalho, mas se uma terra depende de famílias para fazer notícia, então, como disse o grande jornalista Lúcio Flávio Pinto, isso aqui ta virando feira, kitanda, onde todo mundo grita mas só os donos das bancas metem a mão, mas nós, que conhecemos as causas dos povos e das comunidades, nós que nos articulamos no projeto CASA DE CABOCO, do Fórum dos Povos e das Comunidades Tradicionais, juntamente porque pensamos que as comunidades verdadeiras, aquelas que devem ter direito à participação, ficaram de fora do FSM, daí termos optado pelo CASA DE CABOCO e desenvolvido uma série de ações, entre as quais um seminário que colocou os mestres populares na mesma mesa que os mestres ditos eruditos para dialogar sobre interfaces e usurpação de saberes, fizemos também mostras de cinema no OLÍMPIA, com focos temáticos na Amazônia e na África, em buscas das nossas mais fecundas identidades, e, enquanto CORREDOR POLONÊS ATELIER CUTLRUAL, desenvolvemos um conjunto de ações artísticas, muitas das quais que já vínhamos desenvolvendo há cinco anos, sob a ótica da rebeldia, da independência e do experimentalismo, daí as performances ousadas que alguns brasileiros nos brindaram no entorno da Praça da República, fazendo um chamamento às reflexões sobre este Fórum Social Mundial, se as pautas que ele trouxe até o Pará de fato interessam aos paraenses e aos amazônidas, porque temos que ficar atentos, acordados e despertos com relação a estes que se utilizam das causas populares e dos movimentos sociais em benéfico de grupos e indivíduos cujo maior interesse é destruir as lutas históricas do povo, daí a nossa crítica ao FSM ao mesmo tempo em que comungamos com seus objetivos, quais sejam os de se colocar contra esta onda neoliberal e capitalista que destrói as consciências das pessoas, porque, camaradas, temos de ser nós mesmos, amazônidas, a colocar em discussão os assuntos que mais nos interessam, motivo pelo qual estas imagens hoje projetadas, elas tentam sintetizar a nossa causa, a nossa ação artística independente, porque este atelier reúne hoje o que de melhor e mais corajoso existe em Belém do Pará, as pessoas que vem aqui ter conosco, todas elas, saem impressionadas com o que vêem e muitas dizem que jamais viram o que acabaram de ver, porque, a partir de nossas ações artísticas de intervenção social nós buscamos desenvolver pensamentos e estéticas e poéticas articuladas à nossa realidade, o nosso projeto é um projeto ecológico, de resgatar o que a humanidade está a deitar fora, ou seja, a dignidade, a cidadania, a participação e a revolução históricas das consciências sociais, o que nós queremos hoje, portanto, com estas imagens, é revelar a nossa ação e mais do que isso convocá-los a coletividade, á intenção das coletividades, em que a ação responsável de todas tenha como meta a liberdade de todos... Viva a revolução, viva o socialismo, viva arte!

© Francisco Weyl (Carpinteiro de Poesia e de Cinema)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Sexto cartaz

FILOSOFIA E CINEMA

Quinta conferência relâmpago
Pode-se aplicar a filosofia a tudo na vida, até mesmo à arte cinematográfica. Entretanto, analisar filosoficamente uma obra pressupõe a apresentação de pensamentos filosóficos, que, como tais, não só não se adequam absoluta e exclusivamente ás obras cinematográficas, como também não se adequam necessariamente ao tempo em que foram produzidas pelos seus criadores, os quais, por serem profundamente empenhados em uma busca que transcende a temporalidade humana, legaram-nos ideais e valores que não se articulam apenas ao seu campo de estudo filosofal, mas, e por isso mesmo, à vida em toda a sua compreensão histórica, astronômica, física, matemática, artística, etc.
Portanto, pode-se usar a filosofia para analisar a arte cinematográfica mas a filosofia não poderá ser utilizada como instrumento de valoração da mediocridade comercial burguesa. Não poderá a filosofia legitimar a indústria global e suas narrativas estúpidas.
Afirmo isso para explicar que são histéricas e estéreis todas as interpretações e discussões originárias a partir das obras cinematográficas que tem sido realizadas neste tempo.
Primeiro que filosofia não é coisa que prenda a tempo. Segundo porque a filosofia não é coisa que se possa instrumentalizar para rentabilizar uma concepção artística que tem como fim o lucro, a mesquinhez e a burrice humana. Terceiro porque as narrativas burguesas não possuem nenhum conteúdo filosófico. Portanto, se se utiliza a filosofia ou argumentos filosóficos para interpretar um filme isto não quer dizer absolutamente que este filme possa ter algum conteúdo filosófico.
Se o realizador anuncia a sua pretensão filosofal através de sua obra, é preciso escavar as profundezas de sua matéria prima, é preciso ver as camadas fossilizadas de sua cinematografia ou de sua poesia, para saber se estas estão solidificas no amor aborígine á terra, porque o homem é terra, têm os olhos voltadas para o céu mas seu core é feito de terra, a terra é o planeta do homem, o seu plano primitivo, é nesta terra que o homem planta e colhe a sua obra filosofal, a qual não pode ser vendida em mercado de carne humana sob pena do homem tornar-se um verme.
Esta é a condição para que um homem possa fazer um filme poético e filosófico. Mas, se este homem faz filmes poéticos e filosóficos, os outros, o que fazem? Jogos de conquistas de espaços culturais, ecoam sons limitados que não se propagam na energia do espírito, falam para grupos e campos, discutem teorias mundanas, prostituem a arte por um mísero pedaço de pão. Os filmes destas criaturas podem gerar debates entre outros homens e então ouviremos todo um desfilar de teorias psico-sociais para justificar e conferir valor à narrativa burguesa, ao senso comum e a dominação das massas acéfalas.
São discussões histéricas e estéreis, que impõem um conhecimento não arqueológico, um conhecimento superficial, típico de quem não crê na capacidade humana de pensar, um conhecimento gerado pelo poder, que manipula consciências e relaciona filmes e personagens medíocres à vida real dos homens, um conhecimento com idéias articuladas entre episódios comuns da vida, para valorizar a condição humana hipócrita, um conhecimento resultante de teses acadêmicas aliadas á propaganda mediática para difundir um padrão mesquinho, um conhecimento pressuposto, um pseudoconhecimento que não disfarça o jogo do poder burguês, que tem funcionários e empregados em instituições culturais que defendem a vida da exata forma que ela é, esta vida fixa, imóvel, imutável, um conhecimento de intelectuais e pseudo-homens de cultura, que fingem interpretar e sentir a luz da filosofia a obra cinematográfica tão somente para valorar a podridão que só os vermes são capazes de gerar, vomitar, cagar e comer novamente, mas a filosofia, entretanto, sobreviverá a estas tempestades no deserto.
© Francisco Weyl (Carpinteiro de Poesia e de Cinema)






Eu afirmo um cinema radical, mas não independente, pois sei que toda independência é fictícia e contraditória, a começar pela própria dependência dos equipamentos e dos recursos financeiros para que estes sejam garantidos em qualquer produção cinematográfica, entretanto, faço filmes, sem economia de esforços, sem pensar e/ou sonhar com algum êxito comercial, pois, assim como Tharkovsky, que disse que o cinema é uma arte triste porque precisa do dinheiro para sobreviver, eu sei que a poesia é para poucos.
© Francisco Weyl (Carpinteiro de Poesia e de Cinema)
Quinto cartaz

5 ANOS DO CORREDOR POLONÊS ATELIER CULTURAL

OS COLETIVOS
arRUAssa & [aparelho]
& o Cineclube Amazonas Douro

Convidam-no para comemorar o quinto/quinquagésimo aniversário do
Corredor Polonês telier Cultural.
Data da ação: 12/12/2008 (Sexta-feira)
Programa:
17 H (Corredor Polonês): Ação de rua São Jorge, o Dragão
20 H (Corredor Polonês): Projeção do filme LIMITE, de Mário Peixoto
(...) O coletivo arRUAssa propõe a ação de rua São Jorge, o Dragão, que terá como ponto de partida, como base, o Corredor Polonês, situado na Rua General Gurjão, e será desenvolvida ao longo da região do comércio e campina, tendo como ponto final, de chegada, a escadinha, início da presidente vargas.Cada artista fica livre para desenvolver a ação que melhor lhe aprouver, na linguagem que preferir, desde que obedeça o mapa pré-estabelecido que indica o trajeto a ser percorrido, e em determinados pontos estacione a sua bicicleta e execute o seu trabalho.O trajeto, já anteriormente dividido entre os artistas participantes, desenha em uma vista aérea o "$" adaptado às ruas da zona do comércio de Belém, explorando essa idéia fixa de consumismo em véspera de Natal, em contraponto à crise mundial.Todo artista deve estar munido de uma bicicleta, um mapa, muita água, e criatividade para seu trabalho artístico interventício. (...)
Quarto cartaz















A linguagem do cinema constitui-se de uma gramática própria, com a qual pode-se escrever em outros espaços que não fílmicos, esta linguagem, caracterizada por um conjunto de elementos que são comuns a outras artes, como a narrativa literária e a própria dramaturgia, a fotografia e a pintura, ela dia-loga com outras artes, pois que, enquanto obra de arte, é instrumento de mediação dos fenômenos humanos, portanto, o cinema tem uma linguagem que se renova através das tecnologias digitais, a maioria das quais a serviço de um sistema científico-industrial que por pouco não transforma a mágica essência fílmica em uma contingência consumista.
© Francisco Weyl (Carpinteiro de Poesia e Cinema)








Há certos temas que vão à debate, mas que só têm sentido para a indústria, motivo pelo qual eu per-sigo a inexistente rota da arte, este mito necessário, lembro-me de ter realizado um clip com um músico paraense, em Portugal, quando lá residia, a seguir, propus a veiculação deste clip à TV Cultura do Pará, pedi-lhes que veiculassem a minha obra, disseram-me: depende da qualidade do produto final, indignado, respondi, não chamem a minha obra de produto nem lhes atribuam propriedades, pois que ela não possui nenhuma qualidade.
© Francisco Weyl (Carpinteiro de Poesia e Cinema)








A poesia se espraia, atravessando-se a si própria e aos seus leitores – aqui entendidos como todos aqueles que a recebem, independentemente das formas em que as poesias são construídas, se da forma mais tradicional, escrita, no papel, ou (se) de outras formas menos convencionais, articuladas às outras artes, ciências e técnicas, portanto, a poesia, com os seus signos e com outros signos que não os seus, (re-des) significados, a poesia é poesia, qualquer que seja ela, sonhada, pensada, falada, cantada, gritada, silenciada, na escultura, na pintura, no cinema.
© Francisco Weyl (Carpinteiro de Poesia e Cinema)



Quarto cartaz

A força trágika de Glauber Rocha

Quarta conferência relâmpago
Glauber Rocha ainda estava por se transformar no génio do cinema novo brasileiro quando realizou seu primeiro filme, «Barravento», entretanto, é fácil perceber que este filme possui uma série de esboços para uma nova estética artística do cinema.
O argumento foi escrito pelo próprio GR em parceria com José Telles de Magalhães, a partir de uma ideia de Luíz Paulino dos Santos, que é quem deveria realizar o filme, mas, como o cinema tem dessas histórias, esta função acabou por ficar sob a responsabilidade de GR.
Rodado em Buraquinho, uma praia de pescadores localizada no interior da Bahia, em 1962, «Barravento» é, como o próprio texto de abertura explica ao público, «o momento de violência» da terra com a natureza, portanto, a explosão originária do encontro da história com o mito.
É um filme que mostra as contradições humanas a partir das relações de trabalho entre os pescadores que são submetidos a um regime de exploração pelos pequenos empresários (também conhecidos como «atravessadores»), que condicionam seu apoio material à pesca do xaréu a um acordo de compra do peixe por um preço bastante reduzido, o que lhes permitirá uma grande margem de lucro sobre o produto quando este for levado para abastecer o mercado de Salvador, cidade-destino do peixe de Buraquinho.
Nesse texto-prólogo, GR deixa sua marca política de ser humano com consciência social e denuncia a submissão dos pescadores e dessas populações a um imaginário religioso, onde assentam justificativas para suas dificuldades económicas. Ao dizer que os personagens são fictícios mas que os factos existem, GR desloca o filme da ficção para a realidade. Os conflitos entre as personagens de «Barravento», portanto, jamais poderiam ser de ordem romântica, são puramente sociais.
Firmino, representado por António Pitanga, actor que acompanhará GR em quase todos os seus outros filmes, é a personagem que protagoniza «Barravento». Deixou Buraquinho para tentar vida na cidade e agora está na sua terra a brindar com amigos mas também a estabelecer relações conflituosas com eles a partir de suas novas ideias. Firmino é a cidade em choque com o interior. Representa um pouco a figura do malandro, não gosta de trabalhar para ninguém, não concorda que os pescadores de Buraquinho trabalhem para terceiros e também não acredita «nesse negócio de religião».
Aruan, que é o actor Aldo Teixeira, é uma espécie de liderança de Buraquinho, mas respeita e obedece ao mestre-pescador (Lídio Silva) que «comanda» a pesca do xaréu, mas que, para a insatisfação de Firmino, aceita as exigências dos pequenos empresários («atravessadores»). Aruan é o espírito pacato de uma vila (ou aldeia), tem força interior para reagir contra as injustiças mas opta pelo prolongamento de seu silêncio, somente no final do filme é que o veremos decidir-se por ir à cidade para trabalhar e juntar dinheiro para comprar uma rede nova.
Firmino e Aruan vão protagonizar as cenas mais importantes do filme, entretanto, colocados desta forma, estes episódios quotidianos de pessoas comuns nem parecem conflitos. E esta é uma característica que vai marcar a obra de GR desde «Barravento» até «A Idade da Terra», seu último filme, de 1980, mas que aos poucos, gradativamente, GR vai caminhando do real para o mito, ou seja, vai situar sua filmografia numa realidade que ele, GR, construirá com base na estrutura mítica e nas tradições oral e trágica. O homem comum terá, para GR, uma força histórica, e tal qual a história, será um caleidoscópio de contradições.
Por submeter-se ao mito, o povo de Buraquinho é vítima de um «fatalismo trágico», conforme anuncia o texto-prólogo. As gentes habitantes deste espaço tropical e bucólico, em que a beleza paisagística dá um toque de tranquilidade, têm suas raízes assentadas na cultura africana, de onde herdaram o respeito às entidades e forças da natureza, fundamentalmente o culto à Yemanjá, a rainha de todas as águas segundo o candomblé. É Yemanjá que pode provocar ou evitar as tempestades e ventanias marítimas ou proteger os pescadores do mal tempo e/ou das adversidades do mundo, mas, para que isso ocorra, será preciso muito fé e esta fé deverá ser mostrada no culto à rainha da mar.
O cenário das filmagens não poderia ser melhor escolhido e, segundo o texto-prólogo escrito por GR, a equipa contou com o apoio de toda a população, «principalmente dos pescadores, a quem o filme é dedicado». O filme dura 70 minutos e nele se vê muita dança, samba de roda, capoeira, afoxé, ouve-se muito tambor, e contempla-se quase sempre a beleza dos coqueirais típicos das beiras das praias baianas. Sob este ponto de vista, portanto, «Barravento» é um filme riquíssimo. Através dos olhos do câmara Luíz Carlos Barreto, hoje um dos mais importante produtores de cinema do Brasil, GR mostra os rituais de candomblé, cujos atabaques e tambores estarão fortemente presente na montagem final, a cargo de Nelson Pereira dos Santos («Vidas Secas»), ou seja: além dessa aura imagética que revela os mistérios de um povo amordaçado por um «fatalismo», «Barravento» também reúne na sua equipa técnica um grupo de amigos que mais tarde faria uma verdadeira revolução e construiria a história do cinema brasileiro para os próprios brasileiros e também para o mundo.
Em «Barravento», GR nos oferece pistas de um novo conceito de cinema num momento em que arte conceptual ainda nem era um tema dos média. GR é passional no que se refere aos sentimentos de sua brasilidade, o que torna poético e absolutamente pessoal algumas das imagens do filme. Os corpos seminus dos pescadores a lutar com o peixe sob o sol de Buraquinho deixam isto claramente evidenciado.
Esta, digamos, pessoalidade glauberiana introduz, neste filme, uma série de elementos que acompanharão GR ao longo de todas as suas realizações cinematográficas: a crítica a atrofia religiosa de um povo que aceita sua condição de dominado por não ter consciência de seu processo histórico, que submete-se ao misticismo porque tem medo de tentar subverter a ordem das coisas (este é o caso, por exemplo, de «Deus e o Diabo na Terra do Sol») ; o choque de consciência e de ideais entre o habitante das grandes cidades e o morador dos casebres de palha das vilas interioranas (como é o caso de «O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro», basicamente na parte final do filme, quando António das Mortes caminha do mato para a cidade e reconstrói uma fuga natural das pessoas fartas das mazelas do campo); as estratégias de exploração e de dominação de patrões contra empregados, alicerçadas no poder económico dos primeiros e na fraqueza mental dos segundos (exemplo clássico de «Terra em Transe», nas cenas em que os manifestantes populares sequer conseguiam erguer a cabeça para olhar os olhos do governador da província de Alecrim).
GR é e foi e sempre será GR. Seu olhar ainda está a tactear contrastes e movimentos fotográficos em «Barravento» mas é possível já aí identificar o quanto aqueles olhos já são os olhos de um visionário. A explosão sonora dos atabaques do candomblé sobre as imagens das ondas a quebrar na praia simbolizam, no filme, a vida que se revela mas que escapa aos homens mortais comuns, deixando-lhes um rasto cruelmente místico. Captadas pela fotografia de Tony Rabatoni e Waldemar Lima, os pescadores negros a lançar e a puxar a rede ao mar ou a dançar samba de roda e capoeira, mais as mulheres que participam dos rituais de candomblé (mães e filhas de santo), funcionam como uma espécie de alegoria sensualíssima que evoca, por um lado, a beleza corpórea dos negros e, por outro, a redução de suas existências apenas àquelas actividades, como se nada mais se passasse na vida além do trabalho e da devoção à Yemanjá.
GR só está a começar a fazer cinema com «Barravento», mas já é um génio artístico: já fez teatro na escola, já participou da «jogralesca», com leitura de textos e poemas, já escreveu um argumento, com 16 anos de idade, o «Senhor dos Navegantes» (ainda inédito), que se passa também entre os pescadores, e já comprou sua primeira câmara de filmar com o dinheiro que seu pai lhe ofereceu para comprar um carro.
É pelas mãos de GR que se começa a escrever uma nova história do cinema a nível mundial e esta história inicia, é claro, a preto e branco. GR é ainda muito jovem quando realiza «Barravento» e já entra em cena para dar um novo curso a um argumento que ele não criou originalmente. O que seria um documentário sobre a pesca do xaréu transforma-se numa h(e)istória que poderia ter passado ou pode está a passar agora mesmo em qualquer vila de pescadores localizadas numa das inúmeras praias brasileiras.
A força de GR é essa: não há um filme seu que tenha perdido actualidade. GR não faz cinema datado, isto ele deixa lá aos ideólogos da cultura que se preocupam com cronologias e temporalidades.
© Francisco Weyl (Carpinteiro de Poesia e de Cinema)

Cinema de consciência negra

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