
Cinema de Rua é um projeto do Cineclube Amazonas Douro (Francisco Weyl) e da REDE Aparelho (Arhur Leandro), para realizar sessões de cinema (e conferências-relâmpago) nas ruas de Belém do Pará, Amazônia-Brasil.
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
O MASTRO + A POETA DA PRAIA + APOSTOLADO DA POESIA

VIDEOGRAFISMO DA SESSÃO EM MOSQUEIRO
Videografismo documental experimental quando da estreíea dos filmes O MASTRO, de Márcio Barradas, e A FESTA DA COBRA, do Coletivo Resistência Marajoara, no Pria-Bar, Ilha de Mosqueiro, Pará.Com estas ações cineclubistas, o cinema paraense resiste, na contramão do processo kidiático que só consegue ver o que vem de fora do Estado e fecha os olhos para a produção independente que não pactua com o lugar comum que tem lançado a Amazônia ao estado da inanição intelectual.Nossa fome é de uma intelegiência que não seja articifial mas que seja engajada nas lutas e na vida real da comunidade.Viva o Cinema Paraense.Mosqueiro, 4 de dezembro de 2009.
APOSTOLADO DA POESIA
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O Manifesto "Apostolado da Poesia" terá início às 09h do dia 15 de dezembro de 2009. Organizado pelo poeta Caeté, o APOSTOLADO começa na primeira rua de Belém e passará pela feira do Açaí, Bar do Parque, São José Liberto, mercado de São Brás e terminará na praça Tancredo Neves, num verdadeiro encontro da poesia com o cinema, porque de seguida o realizador Márcio Barradas vai projetar seus filmes O MASTRO e A POETA DA PRAIA. A cada canto (e dentro dos ônibus) será recitada uma poesia do livro POEMAS DO BOM AMOR PARA O BEM AMAR, de Caeté.Durante as intervensões serão distribuidas poesias escritas com o contato do poeta para agregar novos colaboradores. Pensamos em trabalhar com uma poesia de cada vez para evitar o desgaste físico durante a intervensão e dar oportunidade de continuidade ao projeto, que será todo filmado pelo carpinteiro de poesia e de cinema Francisco Weyl.
(...)
SINOPSE do filme A POETA DA PRAIA

MÁRCIO BARRADAS
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O REALIZADOR DA ILHA
E se o mundo é uma ilha, margeada, por tsunamis, o realizador independente, à margem, também constrói terremotos submarinos.
Isolado, mas não solitário, o realizador independente é capaz de sobreviver a todas estas intempéries produzidas pelo subcinema comercial.
Porque assim ele (d)escreve a sua a gramatologia fílmica, por entre experimentalismos e narrativas, forjados à vigília e lapidados em pedras que depois se tornam esculturas.
O realizador independente, ilhado, rebela-se contra todas as formas que disfarçadas tentam apagar da memória o átimo da anima, ali mesmo onde ela se manifesta e nos faz ser o que somos.
As ilhas de tão distantes, paradisíacas, são pinturas de sonhos, imagens. Assim é Mosqueiro.
E é desta ilha que temos notícia sobre da produção de pelo menos dois filmes independentes do realizador Márcio Barradas: “O Mastro” (documentário média-metragem) e “A poeta da praia” (ficção – longa), ambos produzidos este ano, na Ilha de Mosqueiro.
Estes filmes que já foram vistos pela comunidade de Mosqueiro, serão projetados às oito da noite, na Praça Tancredo Neves, no âmbito do projeto “Tela de Rua”, organizado pelo Movimento Cultural da Marambaia (Moculma), com apoio do Cineclube Amazonas Douro e Associação Paraense de Jovens Críticos de Cinema.
Para quem está cansado do lugar comum e para estes que insistem em tomar como referência o "cinemão" americano e europeu – numa eterna luta contra a força do cinema amazônida – as comunidades periféricas insubordinadas rebelam-se e provam que nós temos cinema.
Cinema de verdade.
Se estamos ou não sós nesta ilha, o tempo dirá, afinal de contas, a história é inexorável.
©
Francisco Weyl
Carpinteiro de Poesia e de Cinema
SESSÃO HISTÓRICA DE CINEMA
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Documentários inéditos estréiam em Mosqueiro
Além de serem originários do interior do estado, respectivamente, nas ilhas de Mosqueiro (“O Mastro”) e de Soure (“A Festa da Cobra”), os dois curtas-metragens também têm em comum a temática antropológica do ritual do cortejo, com os seus tradicionais símbolos míticos, eróticos e dionisíacos.
Estas profanas procissões, no lugar de um santo, transportam um mastro e uma cobra, típicos elementos (fálicos) das festas tradicionais dos rincões desconhecidos deste país.
O mastro e a cobra, carregados, parecem ter vida própria. E o plano-sequência acompanha o deslocamento de pessoas enquanto estas transportam um ícone que unifica toda uma comunidade.
OS REALIZADORES – O realizador independente Márcio Barradas já fez dois longas (“A poeta da praia” e “O filho de Xangô” – ambos rodados em Mosqueiro) e os curtas “A janela”, “Fluído Humano”, “Coração Roxo” e “Icoaracy”. Poeta e músico, faz questão de afirmar a sua solidão no processo de construção de seus filmes, sendo os curtas mais experimentais enquanto que os longas tendem a ser mais narrativos. Este é seu primeiro documentário.
O Coletivo Resistência Marajoara (www.resistenciamarajoara.blogspot.com) foi o vencedor do prêmio interações estéticas – residências artísticas em pontos de cultura, da Fundação Nacional de Artes, sob a coordenação de Francisco Weyl, autodenominado carpinteiro de poesia e de cinema. O Coletivo realizou este ano nove filmes de curtas-metragens.
FICHAS TÉCNICAS - O MASTRO (Argumento, roteiro, operador de câmera e realizador: Márcio Barradas / Assistente de câmera e operador de boom: Marcelo Bittencourt / Participações: Alcir Rodrigues, Daniel Tavares, Aldo de Vasconcelos, Carlos Augustos Fonseca e Diva Palheta) - A FESTA DA COBRA (Argumento, roteiro, produção, operação de câmera, montagem e realização: Coletivo Resistência Marajoara - Cris Penante, Amanda Barbosa, Larissa Suzane Pacheco da Silva, Marleide do Espírito Santo, Rodiney da Silva Pinheiro, Andrea Scafi Moraes, Doralice Carvalho Cavalcante, Angélica Figueiredo da Costa, Alessandra Figueiredo da Costa, Lia Assunção, Isabela do Lago, Francisco Weyl)
SERVIÇO: Estréia dos documentários “O Mastro” (de Marcio Barradas) e “A Festa da Cobra” (do Coletivo Resistência Marajoara). Sexta, dia 4 de dezembro, às 20 horas, no espaço cultural Praia-Bar, em Mosqueiro. Entrada franca. Apoio: Associação Paraense de Jovens Críticos de Cinema, APJCC / Cineclube Amazonas Douro / Mairy Produções. Contatos: 81 14 81 46
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Francisco Weyl
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
CARTA AO LÚCIO FLÁVIO PINTO
Talvez eu seja tendencioso demasiado para falar sobre como (o)correu a estréia do meu filme CONTRACORRENTE lá na Marambaia, bairro periférico onde morei desde 1973 e de onde jamais saí porque lá moraram meus pais e ainda moram alguns irmãos, além de amigos com os quais partilho ações como o Projeto TELA DE RUA, organizado pelo Movimento Cultural da Marambaia (MOCULMA), do qual sou um dos fundadores (15 anos) e com o qual eu sempre colaborei.
Sou suspeito para falar e tudo o que eu disser poderá ser usado contra a minha pessoa, mas ousarei fazê-lo.
A Praça Tancredo Neves, onde realizamos esta sessão pública de CINEMA DE RUA, que é um projeto desenvolvido por diversos ativistas e coletivos que usam o cinema, o vídeo e o audiovisual como instrumentos de guerrilha e de (trans)formação das consciências, necessariamente rompendo velhos paradigmas estabelecidos e obedecidos pela indústria cultural, é um espaço de RESISTÊNCIA.
Resistência porque ali – historicamente - naquela Praça aconteceram grandes cenas culturais organizadas pela própria comunidade, independentemente do Poder Público.
Resistência porque as pessoas que participaram da estréia do CONTRACORRENTE no dia 5 de outubro de 2009, elas estavam na Praça muito mais do que para ver um filme e pela sua via aprender com as tuas palavras e pela forma corajosa como manifesta os teus pensamentos, mas também para manifestar a solidariedade de uma comunidade a um jornalista que não pode ter o seu inalienável direito à liberdade de expressão cassado pelos setores mais atrasados deste Estado.
As pessoas que assistiram ao meu filme, todas elas, Lúcio, não concordam que tu sejas perseguido política e juridicamente.
Quem assistiu ao CONTRACORRENTE fortaleceu mais um projeto de inclusão cultural e social do MOCULMA e respeitou a cidadania da periferia.
A Marambaia é solidária.
Nós, que passamos a tarde do dia 5 de outubro a fazer discurso no carro-som, enquanto convocávamos a comunidade, fizemos questão de denunciar o sistema judiciário paraense, absoluta e absurdamente atrelado ao poder econômico.
Nós dissemos em alto em bom som para que todos ouvissem que estamos solidários com a tua causa Lúcio, porque te admiramos e te respeitamos e também porque consideramos um ataque à demcoracia esta tentativa de cercear a tua pena.
Sem perder a ternura, antes da sessão de estréia do filme do qual és protagonista e no qual afirmas que de certa forma tu te sentes numa guerra perdida – talvez porque fales para o deserto (já que nesta Belém, os intelectuais estejam todos surdos)! – nós fizemos questão de abrir o microfone aos poetas, porque eles, com os seus versos, sublimam esta realidade com uma visceralidade transformadora, que nos remete a sentimentos mais humanos, verdadeiros.
E os poetas - entre eles o Caeté, o Marcelo Sebastião, o Cuité, o Carlos Pará –; e as lideranças políticas – o Dimmy, o Joel, o Júnior, o Cristiano -; e os artistas – Arthur Leandro, Fernando Pádua, Luizan Pinheiro, Bruna Suelen -; e as dezenas de pessoas que participaram deste ato MARAMBAIA SOLIDÁRIA naquele singelo momento estavam todos contigo, meu camarada.
Foi uma demonstração inequívoca de que asociedade civil - ao menos esta parcela periférica da sociedade - largou de mão o seu medo e a sua indiferença para assumir a sua posição diante deste atentado á democracia em pleno século XXI.
De minha parte eu só tenho a agradecer ao MOCULMA pela oportunidade e também a ti, por me teres concedido o sagrado privilégio de comungar de tua presença e de te entrevistar para este filme, o CONTRACORRENTE, que se torna ele próprio num ato solidário.
Saudações.
Francisco Weyl
PS: publiquei a notícia da Record no Youtube (http://www.youtube.com/watch?v=fHhFG82wy_Y)
CONTRACORRENTE

O projeto Tela de Rua fará o lançamento do Cine-clube MOCULMA - Movimento Cultural da Marambaia que em parceria com o Cineclube Amazonas Douro, têm a honra de convidar a comunidade paraense para a estréia do filme Contracorrente, de Francisco Weyl.O documentário, segundo o seu realizador, é um ato político-cultural em solidariedade ao jornalista paraense Lúcio Flávio Pinto, o qual sofre diversos ataques judiciais e físicos inclusive, contra sua postura crítica e denuncista.
No Filme, Lúcio fala sobre liberdade de imprensa, mídia e poder, jornalismo e política.O jornalista, crítico pela sua própria natureza, é diretor do JORNAL PESSOAL e tem se destacado na luta pela liberdade de expressão e pelos direitos humanos, colocando a sua vida e a sua profissão ao serviço das causas mais importantes do seu tempo.Serviço: Lançamento do Filme Documentário "Contracorrente" do Cineasta Francisco Weyl.Dia: 05/10/2009 (Segunda-feira)Hora: 20h.Local: Praça Tancredo Neves, Marambaia. (Próximo ao final da Linha do Marambaia Ver-o-Peso)Maiores Informações: (91) 8711-8628 / 8174-5995 / 8179-6684 Fonte: Assessoria de Comunicação MOCULMA e Francisco Weyl.
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
CARTA DOS CINECLUBISTAS DA REGIÃO METROPOLITANA DE BELÉM
A experiência da troca de conteúdos e vivências proporcionada pela participação nos DIÁLOGOS CINECLUBISTAS – A fala das práticas - Relatos de experiências e rodas de diálogos, evento livre, democrático e independente, realizado nos dias 17, 18 e 19 de agosto de 2009 em locais onde são desenvolvidas as mais diversas praticas cineclubistas em Belém e em Ananindeua, trouxe para os seus participantes a certeza de que o CINECLUBE é um espaço de construção de aprendizados e diálogos democráticos e necessariamente uma ferramenta educativa capaz de formar consciências e culturas poéticas e visuais, pelas quais o ser humano pode vir a criar e a produzir um novo pensamento, assim como a arte na sua plenitude política e libertária.
Nesse sentido, nós, abaixo-assinados, realizadores, produtores e técnicos, atores e atrizes, cineclubistas, críticos e pesquisadores, exibidores e amantes do cinema, representantes de projetos e organizações com forte atuação em Belém e em Ananindeua, resolvemos tornar pública a CARTA DOS CINECLUBISTAS DA REGIÃO METROPOLITANA DE BELÉM, com o objetivo de refletir, compartilhar e sugerir idéias e propostas para fortalecer o cinema, o audiovisual e o cineclubismo no Estado do Pará.
CONSIDERANDO:
Que a dimensão continental e a diversidade cultural amazônidas são fatores que devem ser referenciados de forma a que sejam rompidas as amarras impostas pelo processo colonizador que cria padrões culturais e mediáticos - internacional e nacional -, que dificulta o direito à produção do conhecimento pelos povos de nossa Região;
Que a produção e a difusão audiovisual que considerem identidades e modos de vida na Amazônia são premissas básicas para que instauremos um processo de construção de novas perspectivas poéticas e visuais capazes de fazer frente às referências audiovisuais impostas pela indústria cultural;
Que é inalienável o direito dos realizadores paraenses garantirem que os seus filmes sejam vistos pela comunidade, do mesmo modo que é também inalienável o direito do povo paraense e amazônida de ter acesso às obras cinematográficas e reflexões críticas produzidas na Região e no mundo;
Que esta consciência também é uma garantia de fortalecimento do atual momento, pelo resgate da memória do cinema e do imaginário de si mesmo;
Que o atual estágio de amadurecimento coletivo das organizações culturais autônomas amazônidas está em sintonia com o avanço dos movimentos sociais;
Que o CINECLUBE tem características colaborativas e solidárias, pelo que as suas atividades são desenvolvidas de forma democrática, mediante compromisso ético e cultural, sem fins lucrativos;
Que as ações de caráter cineclubista dependem de atores voluntários que não economizam esforços para realizar as suas intervenções, na medida em que são amantes do cinema e acreditam na construção de uma cultura visual poética e estética capaz de propor a reflexão crítica amazônida e democratizar a cultura cinematográfica mundial;
Que os praticantes do cineclubismo consolidam e ampliam os circuitos de exibição e fortalecem uma cadeia produtiva (audiovisual e intelectual) solidária, com investimento na economia local, de modo que para as práticas cineclubistas são fundamentais e para a divulgação das obras cinematográficas, na medida em que as tornam conhecidas da comunidade.
PROPOMOS:
Apoio a campanhas e iniciativas promovidas pela Federação Internacional de Cineclubes (FICC) e pelo Conselho Nacional de Cineclubes (CNC);
Implementação de políticas públicas de fomento e fortalecimento da atividade cineclubista no Estado de Pará;
Estadualização dos editais nacionais do audiovisual;
Inclusão de ações de fomento à atividade cineclubista no Plano Estadual de Cultura e nos editais que venham a ser lançados no campo audiovisual paraense;
Inclusão da participação de pessoas físicas em editais cineclubistas (o fomento estatal deve assimilar à dinâmica e a complexidade cineclubista como um movimento que não necessariamente está vinculado a entidade com corpo jurídico consolidado);
Criação da bolsa-cineclube;
Criação de bolsas de pesquisa em cinema e cineclubismo;
As ações governamentais devem necessariamente interiorizar as ações cineclubistas;
Fortalecimento da Rede Paraense de Cineclubes, fazendo distribuir informação, artigos, cartas, manifestos e vídeos em redes sociais, listas de discussão de redes afins, estreitando a comunicação entre outras redes de cineclubes na Região Amazônica e do mundo;
Criação da Comissão Organizadora da JORNADA PARAENSE DE CINECLUBES, com designação de autonomia para desenvolver uma proposta estrutural de realização da mesma;
Criação da Federação Paraense de Cineclubes;
Apoio as organizações sociais que desenvolvem ações cineclubistas no Estado do Pará;
Estímulo à criação e acompanhamento de novos cineclubes, dentro de uma política de economia solidária, embutida em uma estrutura de formação, pesquisa, reflexão, produção, exibição, distribuição e preservação da cultura audiovisual paraense e amazônida;
Apoio à deslocamento para participação dos cineclubes paraenses nos eventos estaduais, nacionais e internacionais;
Investimento em publicações referentes ao movimento cineclubista, como artigos, críticas e material impresso de divulgação coletiva das programações;
Investimento no Circuito Paraense de Cinema em toda a rede de cineclubes, estadual, nacional e internacional, em parcerias diretas com instituições e empresas;
Investimento na distribuição e exibição do acervo de produções do audiovisual paraense e amazônida;
Digitalização e disponibilização à comunidade, inclusive pela inernet, do acervo do Museu de Imagem e Som – MIS;
Promover intercâmbios para fortalecer a rede solidária cineclubista;
Inclusão das organizações de cineclubes nos colegiados de decisão das políticas públicas do setor cultural;
Participação das organizações de cineclubes nos espaços públicos cinematográficos (Cine-Teatro Líbero Luxardo, Maria Silva Nunes, Cine Acyr Castro e Cinema Olímpia);
Inclusão de propostas cineclubistas em projetos como Escola Aberta e outros desta natureza;
Criação da CINEMATECA DO PARÁ, com estrutura para consulta e empréstimo de acervo, assim como a criação de um banco de memória e da história do audiovisual e do cineclubismo paraense.
Estímulo às práticas cineclubistas em espaços urbanos (praças, ruas, feiras);
Investimento em circuitos cineclubistas com a produção audiovisual desenvolvida pelas comunidades paraenses;
Fomento aos circuitos cineclubistas itinerantes;
Estímulo à produção e difusão cineclubista de filmes destinados ao público infantil;
Estímulo à produção e difusão cineclubista de filmes que tenham como tema as comunidades tradicionais;
Uso da licença “CREATIVE COMMONS” como política de fomento à produção audiovisual;
Distribuição em “CREATIVE COMMONS” dos produtos audiovisuais resultantes de fomentos estatal;
Fortalecimento de experiências cineclubistas desenvolvidas no âmbito da administração pública, como o CINE-UEPA, CINE-EGPA, CINE PEDRO VERIANO, SESSÃO CULT, e outras;
Investimento para o MAPEAMENTO da produção audiovisual e das práticas cineclubistas paraenses.
ENCAMINHAMENTOS:
Apresentação e discussão da CARTA DOS CINECLUBISTAS DA REGIÃO METROPOLITANA DE BELÉM com os gestores da administração;
Divulgação CARTA DOS CINECLUBISTAS DA REGIÃO METROPOLITANA DE BELÉM por todos os meios possíveis;
Convocação do movimento cineclubista paraense para a instauração da Comissão Organizadora da JORNADA PARAENSE DE CINECLUBES, com designação de autonomia para desenvolver uma proposta estrutural de realização da mesma, conforme pauta já discutida e definida coletivamente por este movimento, e pactuada por todos os setores para o dia 11 de setembro de 2009, às 15 horas, na Casa da Linguagem.
Independentemente destas propostas que formulamos para que as mesmas sejam levadas ao debate da sociedade e apresentadas aos gestores das instituições públicas culturais bem como a empresas que têm responsabilidade e compromisso com a formação da comunidade, a CARTA DOS CINECLUBISTAS DA REGIÃO METROPOLITANA DE BELÉM está aberta para novas adesões e construção de novas propostas.
Belém, 19 de Agosto de 2009
CARTA DOS CINECLUBISTAS DA REGIÃO METROPOLITANA DE BELÉM:
Cineclubes:
CINECLUBE ALIANÇA FRANCESA
CINECLUBE AMAZONAS DOURO
CINECLUBE ARGONAUTAS
CINECLUBE CENTRO CULTURAL BRASIL ESTADOS UNIDOS (CINE CCBEU)
CINECLUBE CINEMA NA UTOPIA
CINECLUBE CORREDOR POLONÊS
CINECLUBE MÃE NANGETU
CINECLUBE REDE APARELHO
CINE MOCULMA
Projetos:
PROJETO AZUELAR
PROJETO CINEMA DE RUA
PROJETO IDADE MÍDIA
PROJETO MAZAGÃO
PROJETO RESISTÊNCIA MARAJOARA
REVISTA PARÁ ZERO ZERO
Organizações:
ARGONAUTAS AMBIENTALISTAS DA AMAZÔNIA
ASSOCIAÇÃO PARAENSE DE JOVENS CRÍTICOS DE CINEMA (APJCC)
CENTRO DE ESTUDOS E PESQUISAS EM EDUCAÇÃO POPULAR (CEPEPO)
COLETIVO MARGINÁLIA
FÓRUM DOS POVOS E DAS COMUNIDADES TRADICIONAIS
INSTITUTO NANGETU DE TRADIÇÃO AFRO-RELIGIOSA E DESENOLVIMENTO SOCIAL
MOVIMENTO CULTURAL DA MARAMBAIA - MOCULMA
PONTO DE CULTURA ANANIN
PONTÃO DE CULTURA REDE AMAZÔNICA DE PROTAGONISMO JUVENIL
terça-feira, 25 de agosto de 2009
QUANDO A AMAZÔNIA VIROU VANGUARDA DE CINEMA
Há muito que os realizadores de cinema amazônida falam sem que sejam ouvidos.Há muito que os realizadores de cinema amazônida criam obras sem que seus filmes sejam vistos.Nem a Amazônia não se (re)conhece e nem a Amazônia consegue comunicar a sua diversidade criadora aquém ou além de suas fronteiras. (Parafraseando o grande Glauber: Nem a Amazônia comunica a sua miséria ao homem civilizado, nem o homem civilizado compreende verdadeiramente a miséria do homem amazônida.)Se a Amazônia não (se) comunica não é porque ela não sabe comunicar, mas porque as normas da cultura estabelecida provocam a exclusão das falas e das práticas amazônidas.É a nova forma de apartheid: aqui chegam as boas intenções, não os recursos financeiros. Recebemos os discursos mas não os projetos. E sabemos muito bem porque nos retiram dos grandes planos nacionais.Ignorando e menosprezando a produção do pensamento, assim como as ações concretas no campo da construção de uma cinematografia de natureza afirmativamente amazônida, os média e as academias sempre ao serviço da indústria cultural - justificam o cinemacídio que praticam contra artistas, poetas e todos as gentes compõem este nosso universo mágico.As imitações da pseudo-crítica nacional pelos resenhistas locais e todo este neocolonialismo resignado aos padrões hollywoodianos tem os seus dias contados, na medida em que de forma silenciosa e à margem da história oficial, nós, paraoaras-amazônidas, escrevemos uma nova História - com o que o Pai Arthur conceitua como a tecnologia do possível, ou seja, com nossas câmeras de filmar e todos os equipamentos dos quais dispomos, independentemente de formatos e versões, de forma criativa e necessariamente corajosa.Nós fazemos cinema amazônida.
©Carpinteiro de Poesia e de Cinema
8711 8628 3241 9080 4009 2514
CINEMA DE RUA NA TELEVISÃO
CONFERÊNCIA RELÂMPAGO
quarta-feira, 29 de julho de 2009
DEMOCRATIZANDO O AUDIOVISUAL

sexta-feira, 3 de julho de 2009
CINECLUBES PARAENSES EM CIRCUITO NACIONAL
O Cine Mais Cultura garantirá uma oficina de capacitação cineclubista + equipamentos de exibição audiovisual + 104 DVDs da Programadora Brasil + acompanhamento direto para exibições nos 3 primeiros meses de atividade.
E o projeto Circuito Cineclubista promoverá a exibição dos filmes "Patativa do Assaré: Ave Poesia", do cineasta cearense Rosemberg Cariri e "Chama Verequete", dos documentaristas Luiz Arnaldo Campos e Rogério Parreira.
O Circuito é promovido pelo CNC - Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros /Filmoteca Carlos Vieira, contando com o apoio e parceria do CBC - Congresso Brasileiro de Cinema, da ABDn - Associação Brasileira de Documentarista e da CBDC - Coalizão Brasileira Pela Diversidade Cultural e dos realizadores que disponibilizaram gratuitamente os direitos de exibição de suas obras ao CNC.
A oficina de capacitação cineclubista vai acontecer entre os dias 3 e 7 de agosto de 2009, inclusive com a participação de representantes dos estados do Amazonas, Amapá, Acre, Rondônia, Roraima, Tocantins.
De acordo com Francisco Weyl, coordenador dos cineclubes contemplados, cujas sessões são realizadas no âmbito do projeto Cinema de Rua (cinemaderua.blogspot.com), esta oficina dará grande impulso à Jornada Paraense de Cineclubes, prevista para acontecer em outubro, no Marajó.
“Quem ganha com isso é o movimento cineclubista que se está a fortalecer no Pará”, afirma.
Maiores informações em www.cineclubes.org.br.
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© Francisco Weyl
Carpinteiro de poesia e de cinema
quinta-feira, 30 de abril de 2009
PARA UMA CONTRIBUIÇÃO CRÍTICA AO AMAZÔNIADOC
Há um massacre físico e ao mesmo tempo intelectual contra a Amazônia, há seres humanos que renegam a própria História, mas, se por um lado, eles deixam de ser o que são, já que perdem de vista as suas reais perspectivas de construção de identidades, por outro lado, nem por isso a História deixará de ser o que é com a sua inexorável tempestade a destruir estes vales desalmados do conhecimento.
Este massacre contra a Amazônia, portanto, se escreve nas linhas e entrelinhas acadêmicas e mediáticas e são fortalecidas, pois que financiadas, por um ciclo industrial cultural que corrobora para uma tentativa histórica de aniquilar todo e qualquer pensamento, toda e qualquer forma de resistência amazônida.
Nós, amazônidas, sabemos muito bem o quanto é sacrificante afirmar e preservar as nossas tradições contra discursos e práticas pressupostamente híbridos, mas que, por trás das máscaras desta contemporaneidade, utilizam-se das publicidades e dos apoios empresariais e governamentais para piratear e institucionalizar – silenciar – as produções artísticas e culturais das comunidades periféricas. Algumas vezes esta nossa ousadia é mesmo paga com a própria vida.
Não vou defender aqui nenhuma política de cotas para a arte amazônida – para que não me chamem de preconceituoso e bairrista, entretanto, chamo a atenção para uma histórica discriminação contra todas as formas de manifestação artística e cultural que não tencionam e (algumas) se recusam a aderir às tendências preconizadas pelo espírito contemporâneo.
Lamentavelmente, portanto, é na Amazônia onde podemos identificar tais fenômenos com maior clareza. Há neste lado do país uma vasta produção imagética que não é respeitada como documento audiovisual pelos que deveriam formular opiniões. Falo de jornalistas e de produtores de mídia, a maioria dos quais articulados a espaços institucionais e empresariais, necessariamente, ao serviço de políticas e linhas que se recusam a reconhecer e a dar valor ao que é produzido na Amazônia, motivo pelo qual eu cheguei a manifestar por escrito o meu incômodo pelo fato de uma empresa do rio de Janeiro estar a organizar os cineclubes do Maranhão, do mesmo modo que critiquei, por exemplo, que um americano tenha conquistado o grande prêmio do AmazôniaDoc com o apelativo tema da Irma Dorothy.
Com todo respeito a quem quer que seja de fazer/filmar o que quer que seja onde quer que seja, nós, amazônidas – e escreverei este trocadilho com todos os riscos e conseqüências daí advindas – não precisamos de heróis americanos (e nem de cariocas e mesmo paulistas).
Independentemente do interesse que tem o tema e da forma de abordagem do mesmo, há que ser evidenciado que nós amazônidas temos uma tradição de produção de imagens sobre este e outros temas, entretanto, estas imagens não adquirem o status de cinema, de documentário, de audiovisual ou de qualquer que seja o conceito definido de forma convencional por esta comercial indústria cinematográfica, que aceita este filme americano, com todas as chances de promoção pela indústria cultural nacional, com direito a comentários e resenhas críticas em cadernos culturais, num grande esquema de produção global (sem trocadilhos), coisa jamais facilitada para os realizadores amazônidas, que, por sua vez, na contramão da história oficial, vem escrevendo a HISTÓRIA desta terra, a partir de mitos e arquétipos enraizados nas realidades das populações locais,a partir da perspectiva e dos conhecimentos populares destes mesmos povos, que têm eles próprios que ter o direito de construírem as suas identidades artísticas, sob quaisquer formas em que estas sejam manifestadas.
Se os cariocas tem direito de organizar Cineclube no Maranhão e se os americanos têm direito de produzir filma na Amazônia, penso ser demasiado justo que os amazônidas tenham também direitos de produzir/preservar as suas imagens, os seus filmes, os seus cinemas, as suas produções imagéticas, indispensáveis aos processos dinâmicos de construções e de afirmação de seus conhecimentos, saberes, magias e artes.
PS:
A VALE vem produzindo anúncios no DIÁRIO DO PARÁ – um dos balcões-de-negócios disfarçados de jornal tal qual é O LIBERAL. E nestas publicidades, há uma tentativa descarada de associar a imagem destas duas empresas ao apoio à cultura popular, a exemplo de todas as empresas e instituições que se apropriam dos signos da arte e da cultura popular, sem que as comunidades produtoras desta arte e desta cultura recebam o que quer que seja em troca desta manipulação e usurpação.
Carpinteiro de Poesia e de Cinema
Neste domingo, os artistas Carlo Rômulo & Arthur Leandro apresentam DOCUMENTOS DA CAMPINA
em consequência de uma longa história de resistência, parte da qual resgatada/narrada pelo próprio Rômulo, personagem contemporâneo, criador/proprietário do CORREDOR POLONÊS ATELIER CULTURAL, onde (hoje) se produz, freneticamente, arte de intervenção social radical e libertária (entretanto, ignorada pela mídia e pelos seus repercussores/reprodutores que constituem esta estúpida camada dos fazedores de kurtura desta cidade ainda provinciana), portanto, mais que um simples documentário lançado às cegas em meio a este tempo de “amazoniadoc”, uma verdadeira aula cinematográfica de construção processual dos elementos audiovisuais que compõem a épica gramática cinematográfica.
A não perder: “DOCUMENTOS DA CAMPINA”
DOMINGO - 26 DE ABRIL - 20 HORAS - NA RUA GENERAL GURJÃO, 253
NO PROJETO CINEMA DE RUA
Filme de Carlo Rômulo e Arthur Leandro, com a presença dos realizadores, em sessão antecedida de conferência-relâmpago de Francisco Weyl.
segunda-feira, 30 de março de 2009
PRA TRÁS, BRASIL - 45 anos pós-golpe
PRA TRÁS, BRASIL referencia um simbolismo espacial, na medida em que todas as suas imagens (entrevistas) são captadas na Praça da Bandeira, em frente ao Quartel do Exército, centro de Belém, Pará, portanto, é um documentário contra a ditadura, que se caracteriza, dessa forma, como um ato de rebeldia e de protesto contra o silêncio e todas as formas de omissão, opressão, repressão e preconceito político.
No documentário, o engenheiro agrônomo Humberto Cunha, ele próprio torturado pela ditadura na década de 60 – e, apesar disso, um grande construtor das lutas populares amazônidas, fundador da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos, sendo também responsável pela formação política e cultural de várias gerações paraoaras -, responderá perguntas por mim formuladas.
É com este espírito que produzo, realizo, monto e projeto, nesta terça, dia 31 de março de 2009, 45 anos depois do golpe militar, este filme.
Se você quer fazer parte deste processo, vá até a Praça da Bandeira e faça uma pergunta para o Humberto Cunha, ou então envia uma pergunta, mas se você não pode nem ir até a Praça e nem mandar perguntas, aparece no Corredor Polonês Atelier Cultural (General Gurjão, 273, Campina), 20 horas, quando projeto este filme, no âmbito do Projeto Cinema de Rua (http://cinemaderua.blogspot.com).
A História do Brasil agradece.
©
Francisco Weyl
FICHA TÉCNICA:
PRA TRÁS, BRASIL – 45 anos pós-golpe
Entrevistado: Humberto da Rocha Cunha
Entrevistas, Câmara, produção, realização e montagem: Francisco Weyl
Tempo: (...)
Digital, Cor, Brasil, 2009
PROJEÇÃO: DIA 31 DE MARÇO DE 2009
20 HORAS
RUA GENERAL GURJÃO, 273 – CAMPINA
Com a presença do realizador e do entrevistado, para um debate público.
Apoio:
ORGANIZAÇÃO CULTURAL CORREDOR DA AMAZÔNIA
REDE APARELHO
CINECLUBE AMAZONAS DOURO
CINECLUBE CORREDOR POLONÊS
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© Francisco Weyl
Carpinteiro de poesia e de cinema
terça-feira, 24 de março de 2009
O DOCUMENTÁRIO CONTRA A DITADURA
Farei um documentário a partir de entrevista com o camarada Humberto Cunha.
Penso ser importante a Vossa participação com perguntas.
Na Praça da Bandeira, dia 31 de março, às 10 horas da manhã.
(...)
E às 21 horas, projeto este filme-documental
no âmbito do CINEMA DE RUA (http:www.cinemaderua.blogspot.com),
na Rua General Gurjão, Bairro da Campina.
(...)
Agradeço a gentileza de divulgarem esta cena de guerrilha artística.
(...)
AXÉ!
--
© Francisco Weyl
Carpinteiro de poesia e de cinema
FONES: ( 91) 3241 9080 / 4009 2514 / 8412 8628
ACESSE:
http://resistenciamarajoara.blogspot.com
http://www.cinemaderua.blogspot.com
http://www.cinemapobre.org
http://www.mazagao.com. sapo.pt
http://www.cinemapobre.blogspot.com
http://www.alba.com. sapo.pt
http://www.carpintaria.blogspot.com
http://www.poesofia.blogspot.com
http://www.apostaladodapoesia.blogspot.com
Pra frente Brasil dia 31 de março.
Sinopse do filme: Em 1970, em plena época dos anos de chumbo, o Brasil inteiro torce e vibra com a seleção brasileira de futebol, na Copa do Mundo realizada no México. Enquanto isso, prisioneiros políticos são torturados nos porões da ditadura militar e inocentes são vítimas dessa violência.
Este evento faz parte da articulação artística em defesa da cidadania e dos direitos humanos, e pra manter viva a memória da história recente brasileira. 48H DITADURA NUNCA MAIS.
General Gurjão esquina da Bailique, a partir de 19h.
segunda-feira, 23 de março de 2009
quinta-feira, 19 de março de 2009
Prezados Athur, Crow, Weyl, Carlos e Cia...
E-mail do realizador Darcel Andrade, a propósito da projeção de seu filme POR QUE EU, no Projeto Cinema de Rua, dia 6 de março de 2009
Ecoam os sons da rua, dos carros, misturados ao som dos filmes que projetamos ontem no corredor polonês e as luzes dos faróis cruzadas a do projetor. Imaginem a cena numa visão global holográfica e cristalizando uma forma tridimensional como uma instalação de linguagens raras na formação de uma outra linguagem, poética.
Sentado à calçada, no batente das lojas, não somente assisti aos filmes propostos em uma programação, que só serviu de pretexto para reunir outra coisa maior, os sentidos e o valor do homem na concepção de um trabalho diferenciado de promover a poyesis entre sonho e realidade, vontade e atitude, encontro e resistência [aos modelos estabelecidos].
Weyl destacou o Apolíneo, o que habita no mundo dos aedos, e o trouxe para a nossa companhia, o Belo em Si, para o nosso mundo e filosofia fora do mundo das idéias, nesse encontro profano da realidade presente e palpável sem perder a beleza. Como ele mesmo diz: "ao trazer o filme para ser projetado, no meio da rua, a obra se transfigura".
A transfiguração, no sentido amplo da palavra, é transformação, é adquirir outras formas, inesperadas até, inusitadas, diferenciadas, compartilhadas, socializadas, degustadas pelos transeuntes que paravam para ver e ouvir imagem e vozes projetadas em um imenso lençol do outro lado da rua. Parecia proposital [palavra reducionista], mas não, o natural se adapta ao real, à ficção, e tudo de configura, ou melhor, se transfigura em uma composição tridimensional e surrealista: imagem projetada, vozes dos personagens, carros que passam e pessoas que se movimentam frente à tela, como figurantes, objetos de cena, e que fazem parte do cenário do próprio filme que está sendo exibido. E para completar, um público seleto de poucas pessoas que souberam e desejaram entender essa nova maneira de expressão.
Onde estão os críticos? Onde se encontram os apaixonados pelo cinema? Estão trancados nas salas de exibição? Onde está a mídia que gosta de mostrar bumbum das celebridades instantâneas? Deixo claro que meu entendimento sobre o que se expõe nesse contexto, está voltado exclusivamente a uma nova forma de expressão do cinema e sua inserção nos espaços alternativos.
Os sujeitos entrevistados após a projeção, sentados despretensiosamente no bar ao lado, revelam a importância desse projeto. São trabalhadores anônimos, homens e mulheres, moradores do bairro que movimentam a feira de cultura aos domingos na Praça da República, esses desconhecidos do grande público. Carlos, com seu gravador de ouro, soube garimpar um brilho de lucidez nas vozes desses intérpretes, daí a certeza de que a mensagem levada pelo filme Por que Eu?, sobre a transmissão vertical, foi compreendida. Esse é o papel do cinema de rua, que eu incorporo agora, no contexto de minha ótica, ao cinema papa-chibé.
Obrigado, mais uma vez. Voltei pra casa feliz, porque sei, que, de alguma forma, o filme fez a diferença para essas poucas pessoas, a nossa razão de ser!
Um grande abraço.
© Darcel Andrade
domingo, 8 de fevereiro de 2009
A "MALDIÇÃO" de Zé do Caixão
Amaldiçoada seja a sua arte, Mojica!
"A maldição..." foi o seu primeiro filme em Portugal, que estreamos em Belém durante o Concílio Artístico Luso-Brasileiro, que criou o Cineclube Amazonas Douro, o qual coordeno e do qual o Mojica é presidente de honra. E Mojica realizou conosco (um total de 13 pessoas – o número não foi por acaso) um outro flme, dessa vez, digital, o "Pará Zero Zero", resultado de uma oficina de audivisual, filme esse que deu mote à revista homônima e que foi lançado numa sexta-feira, 13 de junho de 2003, no Cemitério da Soledade, numa das cenas mais anárquicas desta terra.
Mojica faz filmes históricos, com uma coragem absoluta, sem medo da hipocrisia e da censura, sem medo da burocracia e da unanimidade, sem medo da mesmice e da burrice. Amaldiçoada seja a sua arte, vítima de todos os tipos de preconceitos e censuras, estes, originários, tanto durante os negros anos do regime militar, quanto neste tempo (pós-moderno?), no moralismo da (pseudo) intelectualidade cultural brasileira, em geral conceitual, covarde e leviana.
Ainda bem que este velho louco e alucinado foi ostracizado em seu próprio país. Assim, não precisou aprender a gramática da intelligentsia medíocre para construir o seu próprio percurso, fundado em corajosas atitudes, com as quais, enfrentando o medo a omissão da elite e sacrificando-se a si próprio e aos seus familiares e amigos, tem desempenhado a sua missão que é fazer cinema.
Indiferentemente aos critérios e análises reaccionários da crítica cinematográfica que se submete aos padrões e dogmas do sub cinema comercial, quer ele seja hollywoodiano ou Europeu, este homem "ignorante" (utilizo o termo entre aspas para ressaltar o preconceito da pseudo crítica intelectual), fez filmes influenciados pelo seu auto didatismo, sem nunca sequer ter lido um livro sobre cinema.
Mojica é um Brasil que se nega a si próprio. O Brasil pobre e violento, que tem força cósmica em sua interioridade mas que dispersa as suas energias em auto flagelações artísticas.
O Brasil de Mojica é genial, responde com criatividade às suas adversidades.
© Francisco Weyl (Carpinteiro de Poesia e de Cinema
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
O FÓRUM SOCIAL MUNDIAL E O CORREDOR POLONÊS
... Antes de mais nada, quero informar que este projeto é da responsabilidade do Cineclube Amazonas Douro, da Rede Aparelho e do Corredor Polonês Atelier Cultural, organizações de criação e de agitação artística que geraram o CINECLUBE CORREDOR POLONÊS, que temos a honra de coordenar, com o apoio do Pai Arthur Leandro e da galera do Corredor, o Krom, a Isabela, o André...
... Aqui nesta rua nós temos projetado filmes, recebido e conversado com as pessoas, e mesmo quando muitas pessoas passam, transeuntes em geral que moram aqui perto ou que passam aqui para ir a algum lugar, mesmo quando estas pessoas passam e não observam ou que fingem não observar o que acontece no meio da rua, no caso, estas projeções, de uma certa forma, todas elas já estabelecem um processo de colaboração conosco, um processo de construção de atitudes, estéticas e poéticas de rebeldia, que caracterizam as nossas ações, porque, apesar de estarmos no dito centro da cidade, a nossa postura, toda ela, é periférica, já que nos colocamos contra este conformismo paraoara e esta resignação belemense de fazer as suas programações culturais apenas no espaços centrais, nas galerias e nos museus do centro da cidade, absolutamente de costas á periferias, logo, quando ocupamos o espaço da rua, nós estamos permitindo a que todos participem, mesmo quando não participam, pois que o simples fato de por aqui passarem já colabora para este processo do acaso, mas não por acaso e sim com propósitos...
.. portanto, hoje nós queremos gritar sobre o Fórum Social Mundial que foi realizado aqui em Belém, entretanto, se perguntarmos a cada uma das pessoas que agora estão a passar aqui nesta rua o que elas pensam do FSM, a maioria delas vai dizer que o FSM deu a maior confusão, deu engarrafamento, fumaram maconha, andaram nus, ou seja, elas reproduzirão o senso comum propagado na mídia burguesa que tem aqui no Pará como patrocinadores as famílias maiorana e barbalho, mas se uma terra depende de famílias para fazer notícia, então, como disse o grande jornalista Lúcio Flávio Pinto, isso aqui ta virando feira, kitanda, onde todo mundo grita mas só os donos das bancas metem a mão, mas nós, que conhecemos as causas dos povos e das comunidades, nós que nos articulamos no projeto CASA DE CABOCO, do Fórum dos Povos e das Comunidades Tradicionais, juntamente porque pensamos que as comunidades verdadeiras, aquelas que devem ter direito à participação, ficaram de fora do FSM, daí termos optado pelo CASA DE CABOCO e desenvolvido uma série de ações, entre as quais um seminário que colocou os mestres populares na mesma mesa que os mestres ditos eruditos para dialogar sobre interfaces e usurpação de saberes, fizemos também mostras de cinema no OLÍMPIA, com focos temáticos na Amazônia e na África, em buscas das nossas mais fecundas identidades, e, enquanto CORREDOR POLONÊS ATELIER CUTLRUAL, desenvolvemos um conjunto de ações artísticas, muitas das quais que já vínhamos desenvolvendo há cinco anos, sob a ótica da rebeldia, da independência e do experimentalismo, daí as performances ousadas que alguns brasileiros nos brindaram no entorno da Praça da República, fazendo um chamamento às reflexões sobre este Fórum Social Mundial, se as pautas que ele trouxe até o Pará de fato interessam aos paraenses e aos amazônidas, porque temos que ficar atentos, acordados e despertos com relação a estes que se utilizam das causas populares e dos movimentos sociais em benéfico de grupos e indivíduos cujo maior interesse é destruir as lutas históricas do povo, daí a nossa crítica ao FSM ao mesmo tempo em que comungamos com seus objetivos, quais sejam os de se colocar contra esta onda neoliberal e capitalista que destrói as consciências das pessoas, porque, camaradas, temos de ser nós mesmos, amazônidas, a colocar em discussão os assuntos que mais nos interessam, motivo pelo qual estas imagens hoje projetadas, elas tentam sintetizar a nossa causa, a nossa ação artística independente, porque este atelier reúne hoje o que de melhor e mais corajoso existe em Belém do Pará, as pessoas que vem aqui ter conosco, todas elas, saem impressionadas com o que vêem e muitas dizem que jamais viram o que acabaram de ver, porque, a partir de nossas ações artísticas de intervenção social nós buscamos desenvolver pensamentos e estéticas e poéticas articuladas à nossa realidade, o nosso projeto é um projeto ecológico, de resgatar o que a humanidade está a deitar fora, ou seja, a dignidade, a cidadania, a participação e a revolução históricas das consciências sociais, o que nós queremos hoje, portanto, com estas imagens, é revelar a nossa ação e mais do que isso convocá-los a coletividade, á intenção das coletividades, em que a ação responsável de todas tenha como meta a liberdade de todos... Viva a revolução, viva o socialismo, viva arte!
© Francisco Weyl (Carpinteiro de Poesia e de Cinema)
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
FILOSOFIA E CINEMA
Portanto, pode-se usar a filosofia para analisar a arte cinematográfica mas a filosofia não poderá ser utilizada como instrumento de valoração da mediocridade comercial burguesa. Não poderá a filosofia legitimar a indústria global e suas narrativas estúpidas.
Afirmo isso para explicar que são histéricas e estéreis todas as interpretações e discussões originárias a partir das obras cinematográficas que tem sido realizadas neste tempo.
Primeiro que filosofia não é coisa que prenda a tempo. Segundo porque a filosofia não é coisa que se possa instrumentalizar para rentabilizar uma concepção artística que tem como fim o lucro, a mesquinhez e a burrice humana. Terceiro porque as narrativas burguesas não possuem nenhum conteúdo filosófico. Portanto, se se utiliza a filosofia ou argumentos filosóficos para interpretar um filme isto não quer dizer absolutamente que este filme possa ter algum conteúdo filosófico.
Se o realizador anuncia a sua pretensão filosofal através de sua obra, é preciso escavar as profundezas de sua matéria prima, é preciso ver as camadas fossilizadas de sua cinematografia ou de sua poesia, para saber se estas estão solidificas no amor aborígine á terra, porque o homem é terra, têm os olhos voltadas para o céu mas seu core é feito de terra, a terra é o planeta do homem, o seu plano primitivo, é nesta terra que o homem planta e colhe a sua obra filosofal, a qual não pode ser vendida em mercado de carne humana sob pena do homem tornar-se um verme.
Esta é a condição para que um homem possa fazer um filme poético e filosófico. Mas, se este homem faz filmes poéticos e filosóficos, os outros, o que fazem? Jogos de conquistas de espaços culturais, ecoam sons limitados que não se propagam na energia do espírito, falam para grupos e campos, discutem teorias mundanas, prostituem a arte por um mísero pedaço de pão. Os filmes destas criaturas podem gerar debates entre outros homens e então ouviremos todo um desfilar de teorias psico-sociais para justificar e conferir valor à narrativa burguesa, ao senso comum e a dominação das massas acéfalas.
São discussões histéricas e estéreis, que impõem um conhecimento não arqueológico, um conhecimento superficial, típico de quem não crê na capacidade humana de pensar, um conhecimento gerado pelo poder, que manipula consciências e relaciona filmes e personagens medíocres à vida real dos homens, um conhecimento com idéias articuladas entre episódios comuns da vida, para valorizar a condição humana hipócrita, um conhecimento resultante de teses acadêmicas aliadas á propaganda mediática para difundir um padrão mesquinho, um conhecimento pressuposto, um pseudoconhecimento que não disfarça o jogo do poder burguês, que tem funcionários e empregados em instituições culturais que defendem a vida da exata forma que ela é, esta vida fixa, imóvel, imutável, um conhecimento de intelectuais e pseudo-homens de cultura, que fingem interpretar e sentir a luz da filosofia a obra cinematográfica tão somente para valorar a podridão que só os vermes são capazes de gerar, vomitar, cagar e comer novamente, mas a filosofia, entretanto, sobreviverá a estas tempestades no deserto.
© Francisco Weyl (Carpinteiro de Poesia e de Cinema)

5 ANOS DO CORREDOR POLONÊS ATELIER CULTURAL
arRUAssa & [aparelho]
& o Cineclube Amazonas Douro
Convidam-no para comemorar o quinto/quinquagésimo aniversário do
Corredor Polonês telier Cultural.
Data da ação: 12/12/2008 (Sexta-feira)
Programa:
17 H (Corredor Polonês): Ação de rua São Jorge, o Dragão
20 H (Corredor Polonês): Projeção do filme LIMITE, de Mário Peixoto

© Francisco Weyl (Carpinteiro de Poesia e Cinema)

Quarto cartaz
A força trágika de Glauber Rocha
O argumento foi escrito pelo próprio GR em parceria com José Telles de Magalhães, a partir de uma ideia de Luíz Paulino dos Santos, que é quem deveria realizar o filme, mas, como o cinema tem dessas histórias, esta função acabou por ficar sob a responsabilidade de GR.
Rodado em Buraquinho, uma praia de pescadores localizada no interior da Bahia, em 1962, «Barravento» é, como o próprio texto de abertura explica ao público, «o momento de violência» da terra com a natureza, portanto, a explosão originária do encontro da história com o mito.
É um filme que mostra as contradições humanas a partir das relações de trabalho entre os pescadores que são submetidos a um regime de exploração pelos pequenos empresários (também conhecidos como «atravessadores»), que condicionam seu apoio material à pesca do xaréu a um acordo de compra do peixe por um preço bastante reduzido, o que lhes permitirá uma grande margem de lucro sobre o produto quando este for levado para abastecer o mercado de Salvador, cidade-destino do peixe de Buraquinho.
Nesse texto-prólogo, GR deixa sua marca política de ser humano com consciência social e denuncia a submissão dos pescadores e dessas populações a um imaginário religioso, onde assentam justificativas para suas dificuldades económicas. Ao dizer que os personagens são fictícios mas que os factos existem, GR desloca o filme da ficção para a realidade. Os conflitos entre as personagens de «Barravento», portanto, jamais poderiam ser de ordem romântica, são puramente sociais.
Firmino, representado por António Pitanga, actor que acompanhará GR em quase todos os seus outros filmes, é a personagem que protagoniza «Barravento». Deixou Buraquinho para tentar vida na cidade e agora está na sua terra a brindar com amigos mas também a estabelecer relações conflituosas com eles a partir de suas novas ideias. Firmino é a cidade em choque com o interior. Representa um pouco a figura do malandro, não gosta de trabalhar para ninguém, não concorda que os pescadores de Buraquinho trabalhem para terceiros e também não acredita «nesse negócio de religião».
Aruan, que é o actor Aldo Teixeira, é uma espécie de liderança de Buraquinho, mas respeita e obedece ao mestre-pescador (Lídio Silva) que «comanda» a pesca do xaréu, mas que, para a insatisfação de Firmino, aceita as exigências dos pequenos empresários («atravessadores»). Aruan é o espírito pacato de uma vila (ou aldeia), tem força interior para reagir contra as injustiças mas opta pelo prolongamento de seu silêncio, somente no final do filme é que o veremos decidir-se por ir à cidade para trabalhar e juntar dinheiro para comprar uma rede nova.
Firmino e Aruan vão protagonizar as cenas mais importantes do filme, entretanto, colocados desta forma, estes episódios quotidianos de pessoas comuns nem parecem conflitos. E esta é uma característica que vai marcar a obra de GR desde «Barravento» até «A Idade da Terra», seu último filme, de 1980, mas que aos poucos, gradativamente, GR vai caminhando do real para o mito, ou seja, vai situar sua filmografia numa realidade que ele, GR, construirá com base na estrutura mítica e nas tradições oral e trágica. O homem comum terá, para GR, uma força histórica, e tal qual a história, será um caleidoscópio de contradições.
Por submeter-se ao mito, o povo de Buraquinho é vítima de um «fatalismo trágico», conforme anuncia o texto-prólogo. As gentes habitantes deste espaço tropical e bucólico, em que a beleza paisagística dá um toque de tranquilidade, têm suas raízes assentadas na cultura africana, de onde herdaram o respeito às entidades e forças da natureza, fundamentalmente o culto à Yemanjá, a rainha de todas as águas segundo o candomblé. É Yemanjá que pode provocar ou evitar as tempestades e ventanias marítimas ou proteger os pescadores do mal tempo e/ou das adversidades do mundo, mas, para que isso ocorra, será preciso muito fé e esta fé deverá ser mostrada no culto à rainha da mar.
O cenário das filmagens não poderia ser melhor escolhido e, segundo o texto-prólogo escrito por GR, a equipa contou com o apoio de toda a população, «principalmente dos pescadores, a quem o filme é dedicado». O filme dura 70 minutos e nele se vê muita dança, samba de roda, capoeira, afoxé, ouve-se muito tambor, e contempla-se quase sempre a beleza dos coqueirais típicos das beiras das praias baianas. Sob este ponto de vista, portanto, «Barravento» é um filme riquíssimo. Através dos olhos do câmara Luíz Carlos Barreto, hoje um dos mais importante produtores de cinema do Brasil, GR mostra os rituais de candomblé, cujos atabaques e tambores estarão fortemente presente na montagem final, a cargo de Nelson Pereira dos Santos («Vidas Secas»), ou seja: além dessa aura imagética que revela os mistérios de um povo amordaçado por um «fatalismo», «Barravento» também reúne na sua equipa técnica um grupo de amigos que mais tarde faria uma verdadeira revolução e construiria a história do cinema brasileiro para os próprios brasileiros e também para o mundo.
Em «Barravento», GR nos oferece pistas de um novo conceito de cinema num momento em que arte conceptual ainda nem era um tema dos média. GR é passional no que se refere aos sentimentos de sua brasilidade, o que torna poético e absolutamente pessoal algumas das imagens do filme. Os corpos seminus dos pescadores a lutar com o peixe sob o sol de Buraquinho deixam isto claramente evidenciado.
Esta, digamos, pessoalidade glauberiana introduz, neste filme, uma série de elementos que acompanharão GR ao longo de todas as suas realizações cinematográficas: a crítica a atrofia religiosa de um povo que aceita sua condição de dominado por não ter consciência de seu processo histórico, que submete-se ao misticismo porque tem medo de tentar subverter a ordem das coisas (este é o caso, por exemplo, de «Deus e o Diabo na Terra do Sol») ; o choque de consciência e de ideais entre o habitante das grandes cidades e o morador dos casebres de palha das vilas interioranas (como é o caso de «O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro», basicamente na parte final do filme, quando António das Mortes caminha do mato para a cidade e reconstrói uma fuga natural das pessoas fartas das mazelas do campo); as estratégias de exploração e de dominação de patrões contra empregados, alicerçadas no poder económico dos primeiros e na fraqueza mental dos segundos (exemplo clássico de «Terra em Transe», nas cenas em que os manifestantes populares sequer conseguiam erguer a cabeça para olhar os olhos do governador da província de Alecrim).
GR é e foi e sempre será GR. Seu olhar ainda está a tactear contrastes e movimentos fotográficos em «Barravento» mas é possível já aí identificar o quanto aqueles olhos já são os olhos de um visionário. A explosão sonora dos atabaques do candomblé sobre as imagens das ondas a quebrar na praia simbolizam, no filme, a vida que se revela mas que escapa aos homens mortais comuns, deixando-lhes um rasto cruelmente místico. Captadas pela fotografia de Tony Rabatoni e Waldemar Lima, os pescadores negros a lançar e a puxar a rede ao mar ou a dançar samba de roda e capoeira, mais as mulheres que participam dos rituais de candomblé (mães e filhas de santo), funcionam como uma espécie de alegoria sensualíssima que evoca, por um lado, a beleza corpórea dos negros e, por outro, a redução de suas existências apenas àquelas actividades, como se nada mais se passasse na vida além do trabalho e da devoção à Yemanjá.
GR só está a começar a fazer cinema com «Barravento», mas já é um génio artístico: já fez teatro na escola, já participou da «jogralesca», com leitura de textos e poemas, já escreveu um argumento, com 16 anos de idade, o «Senhor dos Navegantes» (ainda inédito), que se passa também entre os pescadores, e já comprou sua primeira câmara de filmar com o dinheiro que seu pai lhe ofereceu para comprar um carro.
É pelas mãos de GR que se começa a escrever uma nova história do cinema a nível mundial e esta história inicia, é claro, a preto e branco. GR é ainda muito jovem quando realiza «Barravento» e já entra em cena para dar um novo curso a um argumento que ele não criou originalmente. O que seria um documentário sobre a pesca do xaréu transforma-se numa h(e)istória que poderia ter passado ou pode está a passar agora mesmo em qualquer vila de pescadores localizadas numa das inúmeras praias brasileiras.
A força de GR é essa: não há um filme seu que tenha perdido actualidade. GR não faz cinema datado, isto ele deixa lá aos ideólogos da cultura que se preocupam com cronologias e temporalidades.
Fotografia e Poesia
Imaginemos um fotograma de um filme colorido revelado à preto e branco, ou seja, imaginemos um fotograma original com uma imagem à cor, mas cuja revelação é processada à preto e branco.
Imaginemos que este fotograma colorido revelado à preto e branco foi colocado no ampliador de forma, propositadamente, invertida, ou seja, na imagem original um homem caminha para um lado e na imagem revelada este homem está a caminhar para o lado oposto.
Qualquer fotografia é, em si, uma reprodução diferenciada e invertida de uma realidade ainda mais diferenciada e invertida, mas esta fotografia que vos peço que imaginem é um espelho poético de um homem que se chamava Diniz Albano Gonçalves.
Este homem era um poeta que, quando escrevia versos, assinava-os com o pseudónimo de Sebastião Alba. Entretanto nenhum desses dois poetas, este captado pela foto a caminhar em uma direcção e este que, revelado, caminha em direcção contrária, poderá ser olhado em essência ou realidade, apenas em aparência e representação.
Os dois a caminhar para lados opostos são um só poeta, que agora está morto, mas que, representado pela fotografia, eterniza-se, em aparência. E mesmo que o poeta ainda estivesse vivo, com o seu corpo, já que seu espírito permanece entre nós com a sua obra, uma imagem fotográfica seria incapaz de permitir que o víssemos em essência, pois a fotografia é uma ilusão da realidade.
Antes de analisar a relação entre as duas fotografias, a obtida a cores e a revelada de forma invertida, à preto e branco, antes de responder o que é que uma fotografia tem a ver com a outra eu pergunto: o que é que a fotografia tem a ver com a vida?
Se a fotografia for uma arte no sentido da arte definida por Friedrich Nietzsche, ela será a própria afirmação da vida, mas, se ela for objecto de estudo nas mãos dos críticos cuja interpretação é pura lógica e racionalidade científica, então, ela será só o reflexo e o decalque de uma imagem que em si já é aparência, uma imagem falsa de uma imagem ainda mais falsa: a realidade dos covardes e dos derrotados.
As reproduções de um mesmo fotograma, um à cor, a obedecer o registro original, e outro à preto e branco, com o negativo invertido, não são reproduções de nenhuma representação ou aparência. O poeta Sebastião Alba agora já está morto, mas não a sua poesia, porque, quando criava, ele sentia a poesia que não lhe pertencia, sendo ele a pertencer à poesia que se lhe criava.
Impressa em papéis fotográficos, qualquer imagem é mais morta que os mortos. A fotografia, sabemos disso a partir de leituras de Walter Benjamin e Susan Sontag, apenas representa a coisa representada, ou seja, representa a vida que se representa para a fotografia. Mas a imagem desse poeta morto, entretanto, não poderá mais representar coisa alguma, apenas evocar um momento em que a fotógrafo disparou sua máquina e registrou um átimo de vida deste poeta.
A fotografia tema deste artigo foi obtida no primeiro dia em que o fotógrafo conheceu o poeta e com o mesmo espírito nietzschiano que envolve qualquer produção verdadeiramente artística. O fotógrafo como autor, não da arte, mas de algo que dá origem à arte, segundo Susan Sontag, cria uma relação com o mundo de forma distanciada e ambígua, ora de assédio, ora de submissão. Quando desvenda a realidade oculta, cria um eu individualizado e manipulável através de sua antologia visual. E como há rasgo de esquecimentos na memória selectiva, o ato de fotografar somente pode ser recordado e registrado nessas condições.
Walter Benjamin ensinou que se retrata para ressaltar o valor de exposição da obra e, simultaneamente, destruir-lhe o seu valor de culto. Arrisco afirmar que o ser não cria coisas, estas é que se fazem à sua revelia, técnicas apenas servem ao artista durante o processo de construção de sua obra, necessariamente inconclusa, ou, no dizer de Humberto Eco, aberta.
O fotógrafo, portanto, não tem que saber a fotografia que faz, ele tem que senti-la, mas não necessariamente com o poder de saber o que está enquadrado pela câmara. Só assim ele tornará a fotografia em poesia, e a exemplo da poesia, a fotografia não se escreve na grafia mecânica do papel e/ou da máquina. O fotógrafo tem que saber a fotografia que faz mas não como aquele que controla a sua vida, não com perfeição técnica, pois a perfeição é um mito apolíneo que despreza a natureza das coisas e a técnica é um monstro que se criou no entulho da cultura, enquanto a fotografia mora no ato solitário de fotografar, na coragem de instrumentalizar a arte para o não explicável.
Imaginemos: se um fotógrafo utilizar a sua câmara e apontá-la aleatoriamente para qualquer direcção e dispará-la, ele não saberá se a câmara estará no manual ou no automático, não saberá o nível de abertura do diafragma, não saberá o que está enquadrado pela câmara, e isso não poderá lhe fazer a menor diferença, porque ele estará entregue à fotografia, sem sabê-la, mas sentindo-a, sabendo-a na mesma porque não a viverá. Fotografia é poesia e por isso é arte, é o que não existe e o que não existe não é para ser vivido.
Quando Sebastião Alba escrevia poemas, ele não vivia o seu poema, fazia-o, é como a fotografia ao acaso, na sua força e na sua coragem: depois do poema escrito ou da fotografia realizada, pode-se ir ao laboratório e usar papéis, tempo de exposição à luz, ou no caso do poema, retirar verbos, alterar expressões, reduzi-lo a concepções de unidade linguística, mas então nem o poema será mais poema e nem a fotografia será mais fotografia, porque aquele instante único já será passado, o que quer dizer que não se pode prendê-lo ou eterniza-lo com o saber ou com uma imagem, apenas senti-lo, vivê-lo.
É o poema que se escreve a si próprio e é a fotografia que se revela a si mesma. Aceitando esta natureza, saber sem saber, o poema e a fotografia se manifestarão naturalmente. Talvez assim sejamos capazes de sentir sem saber a vida que vivemos.
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